Terça-feira, Maio 27, 2003
A oito dias de fazer 32 anos.
Olho no espelho e às vezes vejo-me refletida; às vezes, nada.
*
Nos ouvidos, ainda a lembrança das chaves do meu pai abrindo a porta da sala, à noite, barulhinho que dizia "tudo vai ficar bem".
O cheiro da minha mãe. A risada da minha irmã do meio; o barulho das pulseiras da minha irmã mais velha.
A colméia das mulheres de casa, revoando ao redor da mesa. Eu sob a mesa, com minha cachorrinha no colo, vendo as pernas do meu pai balançando sem parar.
O pão preto, os frios alemães, os copos de estanho. O chão quebrado da cozinha, a lousa no quarto da empregada, o tapete do corredor que servia pra deitar em cima e chorar muito.
*
32 anos, agora, uma tatuagem em chamas, um anjo de filha, muitos textos pela frente. Guardar momentos bons. Tentar não repeti-los.
Nada é repetível. Nem tudo precisa ser dito. É melhor que não se diga. Dói um pouco, mas vou aprendendo a cada tropeço.
*
O amor é um bom começo.
Olho no espelho e às vezes vejo-me refletida; às vezes, nada.
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Nos ouvidos, ainda a lembrança das chaves do meu pai abrindo a porta da sala, à noite, barulhinho que dizia "tudo vai ficar bem".
O cheiro da minha mãe. A risada da minha irmã do meio; o barulho das pulseiras da minha irmã mais velha.
A colméia das mulheres de casa, revoando ao redor da mesa. Eu sob a mesa, com minha cachorrinha no colo, vendo as pernas do meu pai balançando sem parar.
O pão preto, os frios alemães, os copos de estanho. O chão quebrado da cozinha, a lousa no quarto da empregada, o tapete do corredor que servia pra deitar em cima e chorar muito.
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32 anos, agora, uma tatuagem em chamas, um anjo de filha, muitos textos pela frente. Guardar momentos bons. Tentar não repeti-los.
Nada é repetível. Nem tudo precisa ser dito. É melhor que não se diga. Dói um pouco, mas vou aprendendo a cada tropeço.
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O amor é um bom começo.
Domingo, Maio 25, 2003
Existem sonhos maravilhosos, dos quais a gente não tem vontade de acordar. São aqueles que fazem a gente querer dormir de novo se por acaso for desperta no meio de um deles, assim, e pede pra Deus pra que Ele possa fazer o sonho voltar à nossa mente na hora em que a gente dormir de novo.
Mas acho também que muitos dos sonhos dos quais a gente não consegue se lembrar são sonhos terríveis.
*
É como um "blackout" anímico.
*
E se alguém mais na Terra tivesse o poder de ver os seus sonhos com você? E isso acontecesse, assim, uma noite? Você acorda de manhã e não se lembra do que sonhou. Sabe que foi forte, mas não sabe se era bom ou ruim. Mas tem certeza da intensidade daquilo.
Você pode perguntar para essa outra pessoa, pedisse que te contasse o sonho.
*
Você perguntaria? E se a sua mente estivesse escondendo esse sonho de você para ele não arrebentar a sua alma?
*
Ou um sonho terrível, absolutamente terrível, depois de ser filtrado pela mente de uma terceira pessoa, já não te despedaçaria?
Mas acho também que muitos dos sonhos dos quais a gente não consegue se lembrar são sonhos terríveis.
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É como um "blackout" anímico.
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E se alguém mais na Terra tivesse o poder de ver os seus sonhos com você? E isso acontecesse, assim, uma noite? Você acorda de manhã e não se lembra do que sonhou. Sabe que foi forte, mas não sabe se era bom ou ruim. Mas tem certeza da intensidade daquilo.
Você pode perguntar para essa outra pessoa, pedisse que te contasse o sonho.
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Você perguntaria? E se a sua mente estivesse escondendo esse sonho de você para ele não arrebentar a sua alma?
*
Ou um sonho terrível, absolutamente terrível, depois de ser filtrado pela mente de uma terceira pessoa, já não te despedaçaria?
Sexta-feira, Maio 23, 2003
O que perpetua é a vontade embriagada da qual tento me livrar - inutilmente. Perpetua, desabrocha, flor escura, um mal-me-quer que dá brotos e brotos quanto mais veneno toma. E desde ontem que esse desejo furioso me queima o peito e os olhos. Quando olhei no espelho, estava lá o reflexo da erva daninha que me corroía.
*
Incendeio em choro.
*
A tristeza corrosiva que dilacera. Não queria aquela imagem sozinha no espelho. Uma desmesura, fragmentos de impotência.
Cair no vazio, tentar segurar em nada. E rodopiar na única certeza - aquela que arrebenta.
*
Incendeio em choro.
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A tristeza corrosiva que dilacera. Não queria aquela imagem sozinha no espelho. Uma desmesura, fragmentos de impotência.
Cair no vazio, tentar segurar em nada. E rodopiar na única certeza - aquela que arrebenta.
Quinta-feira, Maio 22, 2003
A memória encrespada e movediça me enrosca as mãos vez em quando
Mas mesmo assim te demoraste. Tropeçando nas sombras de palavras que, de tão omissas,
Não poderiam nem se chamar palavras.
*
Esquiva-te, esquiva-te, golpeia; golpeia, esquiva-te, esquiva-te.
Um reflexo do que há de mais distante em mim. Tão distante que, a mim,
Já poderia nem mais pertencer.
Pertences.
(Alessandra Siedschlag - 22.05.03)
Mas mesmo assim te demoraste. Tropeçando nas sombras de palavras que, de tão omissas,
Não poderiam nem se chamar palavras.
*
Esquiva-te, esquiva-te, golpeia; golpeia, esquiva-te, esquiva-te.
Um reflexo do que há de mais distante em mim. Tão distante que, a mim,
Já poderia nem mais pertencer.
Pertences.
(Alessandra Siedschlag - 22.05.03)
Terça-feira, Maio 20, 2003
*
Love, love, my season
(S. Plath)
Love, love, my season
(S. Plath)
Ah então não me repenses, afinal minha memória em ti não condiz comigo, essa não sou eu, essa nunca fui eu.
Manhãs distendidas sobre leitos vazios, é assim que as coisas são agora, e a mão do sol que tenta tocar a nota mais alta, que se esconde.
Quantas vezes o que morre em ti nasce em mim, e nasce em mim e morre em ti, em um ciclo alucinado onde não se sabe mais onde terminas tu e onde começo eu.
Se é que começo em algum lugar.
*
Minhas pernas dóem, os meus braços dóem, e o tecido que arde é a voz da minha fome.
Colhe tuas flores, agora. Colhe tuas flores, aquelas que brotaram e não se sabe se da mão do jardineiro ou do adubo do terreno.
*
Desejo. Permanência. Intensidade. As três guerreiras do meu apocalipse.
(Alessandra Siedschlag - 20.05.03)
PS: (atualização) Como revisora, não podia mesmo ter escrito a palavra "doem" com acento. Mas enfim, não vou mudar. Ficou bonito. Não estou vendo o acento como acento, mas como espinho.
Manhãs distendidas sobre leitos vazios, é assim que as coisas são agora, e a mão do sol que tenta tocar a nota mais alta, que se esconde.
Quantas vezes o que morre em ti nasce em mim, e nasce em mim e morre em ti, em um ciclo alucinado onde não se sabe mais onde terminas tu e onde começo eu.
Se é que começo em algum lugar.
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Minhas pernas dóem, os meus braços dóem, e o tecido que arde é a voz da minha fome.
Colhe tuas flores, agora. Colhe tuas flores, aquelas que brotaram e não se sabe se da mão do jardineiro ou do adubo do terreno.
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Desejo. Permanência. Intensidade. As três guerreiras do meu apocalipse.
(Alessandra Siedschlag - 20.05.03)
PS: (atualização) Como revisora, não podia mesmo ter escrito a palavra "doem" com acento. Mas enfim, não vou mudar. Ficou bonito. Não estou vendo o acento como acento, mas como espinho.
Domingo, Maio 18, 2003
Onde será que foi parar aquela minha inspiraçãozinha? É uma assim pequenininha, amarelinha, que vive se metendo onde não deve.
*
Deve estar mesmo dentro de alguma gaveta, junto de um barulho surdo e de um chumacinho de nuvem de chuva. Vou procurar melhor.
Quarta-feira, Maio 14, 2003
...e foi quando ele a tomou para si que fez-se dia e as janelas já despudoradamente abertas deixavam então entrar vento e chuva e luz azul num estalar de olhos.
*
...e foi quando ela sussurrou "ai, valente" que sentiu-se um gosto tênue de um breve chamuscar de lábios.
Sexta-feira, Maio 09, 2003
FOR MY WOLF-BABE
(- uma pequena adaptação, com a devida licença de Ms. Lauper - Músicas: Calm Inside the Storm; You Make Loving Fun; Wide Open)
You give you something only life can bring: the calm inside the storm (yeah, love me a little, love me long, babe)...
Yes, now you are holding me and I am not all locked inside as I used to be - you made me throw my keys.
*
Sweet wonderful you, you make me happy with the things you do - and this feeling follows me wherever I go.
I never did believe in miracles, but I've a feeling it's time to try;I never did believe in the ways of magic but I'm beginning to wonder why
Don't, don't break the spell, it would be different and you know it will.
You, you make loving fun, and I don't have to tell you you're the only one
*
I´m wide open for you, babe.
(- uma pequena adaptação, com a devida licença de Ms. Lauper - Músicas: Calm Inside the Storm; You Make Loving Fun; Wide Open)
You give you something only life can bring: the calm inside the storm (yeah, love me a little, love me long, babe)...
Yes, now you are holding me and I am not all locked inside as I used to be - you made me throw my keys.
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Sweet wonderful you, you make me happy with the things you do - and this feeling follows me wherever I go.
I never did believe in miracles, but I've a feeling it's time to try;I never did believe in the ways of magic but I'm beginning to wonder why
Don't, don't break the spell, it would be different and you know it will.
You, you make loving fun, and I don't have to tell you you're the only one
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I´m wide open for you, babe.
D(ud)ivagações
O que vem em forma de dúvida é dádiva. Aprende-se.
*
*
Você sabe o quanto é amada quando um caminhão amarelo bate no seu carro cheio de compras de supermercado e te arrasta cinco metros e você liga chorando e com medo e assustada pra casa e ouve do outro lado uma voz que te acalma e quando chega em casa recebe o colo mais gostoso do mundo do seu namorado e um abraço tamanho universo da sua filhinha de três anos.
Se isso não é AMOR, eu não sei o que é.
*
*
E o importante nessa falta de distância não é o fato de que nunca mais vai haver distância - mesmo porque isso não é real, já que tudo vai mudando todo dia.
O importante mesmo é que a gente vê que é possível não haver distância. E isso faz toda a diferença.
O que vem em forma de dúvida é dádiva. Aprende-se.
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Você sabe o quanto é amada quando um caminhão amarelo bate no seu carro cheio de compras de supermercado e te arrasta cinco metros e você liga chorando e com medo e assustada pra casa e ouve do outro lado uma voz que te acalma e quando chega em casa recebe o colo mais gostoso do mundo do seu namorado e um abraço tamanho universo da sua filhinha de três anos.
Se isso não é AMOR, eu não sei o que é.
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E o importante nessa falta de distância não é o fato de que nunca mais vai haver distância - mesmo porque isso não é real, já que tudo vai mudando todo dia.
O importante mesmo é que a gente vê que é possível não haver distância. E isso faz toda a diferença.
Domingo, Maio 04, 2003
And you can't talk about it - isn't that a kind of madness? To be living by a code of silence when you've really got a lot to say? But you've been through it once and you know how it ends; you don't see the point of going through it again. And this ain't the place and this ain't the time and neither's any other day.