Terça-feira, Dezembro 31, 2002
Talvez a única razão pra isso tudo seja
cobrir os teus rastros com os meus.
*
Talvez isso faça toda a diferença.
*
Talvez não.
Sábado, Dezembro 28, 2002
Com o que sonham as menininhas na cama: com os olhos
de lobo dos príncipes encantados, com os santos frágeis
como palhaços e com os cabelos compridos, bem compridos
que terão um dia.
*
A alma é uma fome.
(Christian Bobin)
Quinta-feira, Dezembro 26, 2002
Acho que aquela sensação de não saber bem onde se está ou que horas são,
sensação à qual fui apresentada há pouco tempo e que até me incomodou no
começo mas agora muito me agrada, vem do fato de nossa mente e nosso corpo
e nosso espírito de repente se tornarem um - assim, bum -, e a gente não consegue
sentir nada a não ser o coração tum-tum e o lobo que morde a garganta da gente,
por dentro, e o horário e o dia da semana já não existem mais por simplesmente não
fazerem sentido, e o lobo tum-tum e o coração que morde a garganta por dentro e a
garganta que já não é e o lobo e o coração que são um. O lobo e o coração, um.
*
Ow. Isso vicia.
*
Quarta-feira, Dezembro 25, 2002
Amar, desarmar?
Segunda-feira, Dezembro 23, 2002
Recebi do Terry um e-mail que me tocou o coração. Dentre outras coisas, ele diz
Alessandra,
Mulher amazona,
Protegida por lobos,
Em desafio a montanhas.
É estranho dizer que não te conheço. É verdade que
nunca vi teus traços, é verdade que desconheço teu
dia-a-dia. Porém, acho que vi um pedaço de algo mais
íntimo e importante, um pedaço de alma materializada
em letras, alma esta que viaja quilômetros e
impressiona a minha retina através da tela de um
computador, tela que muito bem poderia ser descrita
como um quadro, pintado a óleo, com pincéis
nervosamente delicados, obra-prima moderna de
paisagens selvagens, desenho encantador. Eu vi só um
pedaço, só um teco, mas saiba que é encantador. Creio
que este não tenha sido um ano fácil para ti, mas são
os terrenos irregulares que fortalecem nossos
músculos, não é mesmo? Por isso, queria dizer que foi
muito bom te conhecer e gostaria de te desejar um
próximo ano em que tudo você possa não só desejar,
como também conquistar.
Desejo aqui, de todo o coração, ao Terry, à Sis, à Lana, ao Kali,
à Funny, ao Sounds e à Soul, ao Arno, ao T1X, ao Maurice, ao Chili Palmer,
ao Hippie Killer e a todas as pessoas que entram aqui e lêem algumas linhas
e escrevem ou que pensam em escrever e não escrevem ou que
nem pensam em escrever nada mas lêem alguma coisa e alguma
coisa fica dentro, uma chaminha acesa, um fiozinho de malha de lã
puxado... desejo um Natal maravilhoso, cheio de paz e amor e beijos
e carinhos e muita presença de Deus.
*
Esse ano pra mim valeu por muitas coisas, aprendi muito, cresci muito.
E um dos motivos de ter valido tanto foi conhecer vocês.
Um beijo imenso.
Ale
Que arda em nós
tudo quanto arde
e que nos tarde a tarde.
(Olga Savary)
Estou
trêmula porque não cabe no tempo
trêmula - porque não cabe - no tempo
que não te oferto
habito a casa de quando em quando
meu bem: a visão da janela escapa
não te oferto
Não, não é diante da janela
que falo
Não é diante da janela que te falo.
Não recito para os pássaros.
Não é o que se diga.
(A. Cristina Cesar)
Alguém que mora em São Paulo tem notícia daquelas árvores que se chamavam "chorões" e
que existiam em quase todas as ruas lá nos Jardins, em Moema e no Brooklin? Eu nunca mais
vi e isso me angustia. Quando eu era pequena, adorava quando o sinal fechava e minha mãe parava
o carro embaixo de um chorão. Eu ficava pensando o quanto aquela árvore tinha chorado pra ficar daquele
tamanho e tão linda. Por que será que os chorões sumiram?
*
Hoje em compensação sou apaixonada por árvores de jasmins cor-de-rosa (como se chamam árvores
de jasmins? Jasminzeiras? Jasmineiras?)... na verdade, não tanto pela árvore, mas pelo cheiro que as
flores que estão sendo cozidas pelo sol depois de caírem na calçada deixam no carro fechado. Adoro
deixar um jasmim dentro do cinzeiro do carro, um outro no buraco do acendedor, vários no quebra-sol e um
tapete deles no banco de trás. Quando você abre o carro, é melhor do que qualquer perfume do mundo.
*
Deus. E o tempo não passa. E eu quero ir embora.
*
E mesmo o meu medo de avião ainda nem se manifestou. Pra você ver o que é vontade...
*
Tá bom, Tempo, roubei-lhe dez minutos. Mas você ainda está ganhando.
*
Mas amanhã você me olhe nos olhos e diga quem tem inveja de quem...
"Você aprisiona, eu liberto; você adormece as paixões, eu desperto...
Então se roa de inveja de mim, me vigie querendo aprender, como
eu morro de amor pra tentar reviver..."
*******************************************************************************************************************
Domingo, Dezembro 22, 2002
Tá. Mais um dia, só, neste caos, nessa concretude interna e externa, nessa cidade
que me engole e me abafa, me encinza mesmo sob o céu tão azul desses dias.
Só mais um dia, aff, aguenta firme, só mais um dia.
*
Pega o avião e some.
*
Ou se encontra. Dependendo do núcleo de "realidade" do qual falamos agora.
*
Mais um dia.
Eis-me em busca daquilo que de alguma forma foi não perdido porém enterrado tão fundo
que foi até esquecido por algum tempo (não sei dizer quanto), mas enfim esse "aquilo" se lembra
de mim e não se esqueceu de mim e agora me chama pra perto, de novo, e vou, não sei pra onde,
também não me lembro bem a cara do que eu tenho que encontrar, na verdade nem sei se tenho
propriamente que encontrar alguma coisa, e vou cavalogalgando meio que sem rumo mas isso pra
mim agora é ter rumo, foi o rumo que me tomou, de verdade, eu, que desci do cavalo e encostei o ouvido
no trilho do trem e não ouvi nada, mas o trem me ouviu e ouviu meus pocotós e tumtuns; eu, que levantei
meu nariz pro céu e inspirei mas não senti nada e quem sentiu foi o céu o meu cheiro de lobos e cavalos
e então o rumo me tomou, assim, descompassadamente, como um dançarino furioso, pela cintura, e me
colocou romanticamente sobre esse instinto que cavalgo, e me disse, segue, e eu disse, segue o quê?,
e ele disse, apenas segue, mas que mania de achar que todos os verbos são transitivos, e eu destransitivei
e emudeci e estou desde então seguindo.
*
Faz muito pouco tempo que voltei a seguir. Muito pouco, mesmo.
*
Mas enfim agora isso não importa mais. Sigo a vontade encavalada. Ad libitum.
*
E a medida do desejo e da paixão não é a dor que eles causam - é o quanto a gente não quer descer desse cavalo e o tão
pouco que importa o onde, o quando e o porquê. O tanto que importa o transbordo do vulcão.
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*
Spreadin´ my wings and flyin´,
ou pelo menos tentando.
Porque eu quero.
Yeah Sir, I do.
E porque me faz um bem enorme
E porque eu gosto tanto.
*
Pronto. Tá aqui a mecha de cabelo prometida. A cor se chama mahogany.
Mais kitsch, impossível... Adorei.
*
Enruivesci.
*
Tô feliz.
*
Sábado, Dezembro 21, 2002
...e de cabelón e com cara de choro... pra mostrar que quando a gente acha
que ele não pode ser mais perfeito ele vem e mostra que pode, sim.
*
...Tá, eu paro.
Tirado daqui
Da série: pediu pra ser tudo no vale do eco
E esse cara ainda tem a coragem de escrever e cantar uma música como Black. Deus.
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Da série: pediu pra ser tudo no vale do eco
E esse cara ainda tem a coragem de escrever e cantar uma música como Black. Deus.
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Deslizante. Um pouco insegura, mas afoita, tal guardiã das vontades.
Hoje ela é mais jovem do que ontem, e mais mulher também.
Escolheu a vida, após conhecer o resto e não acreditar nele.
Não é um ser lânguido ou líquido ou lógico.
Mas tem a alma macia como as algas distraídas
Que se enroscam nos dedos de suas mãos, em forma de versos.
*
Deslizante.
Sexta-feira, Dezembro 20, 2002
Meu Esquema
(Mundo Livre S/A)
Ela é meu treino de futebol
Ela é meu domingão de sol
Ela é meu esquema
Ela é meu concerto de rock n’ roll
Nação, minha torcida gritando gol
Minha Ipanema
Ela é meu curso de anatomia
Ela é meu retiro espiritual
Ela é minha história
Ela é meu desfile internacional
Ela é meu bloco de carnaval
Minha evolução
Galega
Tento descrever o que é estar com você
Princesa
Todos vão saber que eu estou muito bem com você
Ela é minha ilha da Fantasia
A mais avançada das terapias
Meu Playcenter
Ela é minha pista alucinada
A mais concorrida das baladas
Meu inferninho
Ela é meu esporte radical
Poderosa, viciante, mas não faz mal
Meu docinho
Ela é o que meu médico receitou
Rivaldo Maravilha mandando um gol
Minha chapação...
Galega
Nem dá pra dizer o que é estar com você
Princesa
Todo mundo vê que eu sou mais...
Hush.
I´m here. And here I´ll stay.
Hush.
Ow, que lindoooooooooo...
*
No blogue da Silent Sis,
eu disse que trancaria ela própria, o Terry
e o Kali em uma gaveta e etiquetaria
do lado de fora: Doçura.
*
Olha o que esse menino fofo escreveu pra mim, em resposta,
lá no mesmo blogue... Que lindo!
Chave Mixa
Trancou três
numa gaveta
e rotulou:
"doçura".
Ao passar a chave,
se deteve, não conseguiu.
Não soube superar
A própria candura.

What Mythical Creature Are You?
brought to you by Quizilla
You are the brave yet innocent caring creature, the Unicorn. You live in the forest and you risk your life to help others. You are untamable, and difficult to capture. Your power is in your horn; the horn is also an antidote for poison and was highly prized.
Tá, legal e tudo.
Mas como assim "your power is in your horn"???
*
A que ponto chegamos.

(Ilustrações: Graham N.)
"Daí a pouco, Alice e chegou a um lugar, onde um Grifo estava adormecido ao sol.
Apesar de assustada, Alice ficou ali.
O Grifo sentou-se e ficou olhando para ela, longamente. Depois deu uma risadinha e disse:
- Que graça!
-O que é engraçado?, perguntou Alice, contrariada.
-Ora, você! Venha comigo.
Que mania todos têm de dar ordens aqui, pensou Alice.
E saiu andando, vagarosamente, atrás do Grifo."
Quinta-feira, Dezembro 19, 2002
Então. Essa mulher aí em cima é a culpada.
Depois de quatro shows dela, aos quais assisti literalmente de boca aberta por quase duas horas, tudo mudou. Mesmo.
É por causa dela que uso delineador preto até parecer uma etíope,
é por causa dela que 90% dos meus sapatos são botas, é por causa dela que música e poesia pra mim andam juntas.
É por essa mulher que meu estilo é esse, assim, inominável. É por causa dela que não consigo desconstruir um vestido
quando acho que ele pode ser rotulável. É por causa dela que uso um vestido preto, botas pretas, brincos e colar de pérolas e
desconstruo tudo com um casaco de pelúcia amarela.
É por causa dela que mudo a cor do meu cabelo mais rápido do que de idéia.
É por causa dela que gosto de dançar até cair (às vezes literalmente). É por ela que não acredito em sensualidade de plástico.
É nela que vejo a sensualidade que gosto de ter, aquela que tem gosto de algodão-doce, onde o lobo se confunde com a criança.
Ela é o patinho feio, a anti-heroína, a mulher que canta, a voz maravilhosa, a beleza não-ortodoxa, a comunhão com Deus, ela é
tudo o que acredito que eu gosto (ou gostaria) de ser.
E foi ela quem escreveu essa música aí de baixo. Essa letra tão linda. A primeira letra escrita por Cyndi Lauper - eu tinha seis anos, na época. E pra mim, hoje, é tão absurdamente atual.
*
É em homenagem a ela que sábado vou mudar de novo a cor do meu cabelo. Sugestões serão aceitas até 18h de amanhã. Obrigada.
*
You Make Loving Fun
(Cyndi Lauper, 1977)
Sweet wonderful you
You make me happy with the things you do
Oh, can it be so
This feeling follows me wherever I go
I never did believe in miracles
But I've a feeling it's time to try
I never did believe in the ways of magic
But I'm beginning to wonder why
Don't, don't break the spell,
It would be different and you know it will
You, you make loving fun
I don't have to tell you you're the only one
You make loving fun
It's all I wanna do
We´re free t fly the crimson sky
The sun won´t melt our wings tonight
(U2)
Tá, então combinamos assim.
Eu durmo nesse exato momento, e você me acorda no dia 24.
Pega minha mão e me diz "hush". E aí a gente vai.
Sei lá pra onde, mas a gente vai.
Pode ser um lugar com muita água doce,
pode ser o interior do interior do interior, de mim, de você ou do estado, ou do País.
Que seja interior, por favor.
Um lugar onde tenha muito sol e muita lua. Um infinito de estrelas.
Estrelas nos meus dedos e no teto do nosso quarto que pode ser o céu.
Pedras grandes pra gente deitar em cima e não dormir, mas esquecer.
(Ou lembrar, dependendo do ponto de vista.)
Standards de jazz, muito jazz, por favor, on the rocks.
Purpurina, perfume, pimenta e piscinas. Cavalos à beça.
Ah.
E um ou dois lobos, para nossa proteção.
*
Boa noite.
Quarta-feira, Dezembro 18, 2002
Eu Só Sei Amar Assim
(Herbert Vianna)
Muito pra mim é nada
Tudo pra mim não basta
Eu quero cada gesto, cada palavra
Cada segundo da tua atenção
Faça isso por mim
Leve a dor pra longe daqui
Estou cansada de ouvir
Que eu só sei amar errado
Estou cansada de me dividir
O que é certo no amor
Quem é que vai dizer
O que falar, calar e querer?
Eu quero absurdos, quero amor sem fim
Eu quero te dizer que eu só sei amar assim.
Ow. Só pra avisar que estou viva, deu tudo certo, 100% certo, graças a Deus. Obrigada a quem me escreveu se preocupando - vocês são muito doces. Muito doces. Estou muito feliz. E a felicidade é doce como vocês que me rodeiam. E nada arde. E tudo é mais azul, e mais claro e mais limpo. Tudo é fácil e simples e disso consistem meus momentos de maior felicidade.
*
Quero dividir isso que estou sentindo agora. Tenho vontade de passar purpurina no rosto e no colo e dançar até cair, agora, neste minuto. Exatamente essa música, bem alto.
*
Dá tua mão, e não olha pra frente. Faz promessas, diz "pra sempre", faz a mala, só não olha pra frente. Pula. Não olha pra frente, não olha pra baixo, mas não fecha os olhos. Me abraça, dança comigo essa música, não sai do meu lado. Acredita, beibe. Acredita bem alto, acredita bem forte, e tudo dá certo assim. Você sabe, como eu sei. Não tem outro jeito de dar certo.
*
Diz no que você acredita AGORA - é tudo o que eu preciso ouvir.
O resto a gente faz junto.
*****************
New sensation
(INXS)
Live baby live
Now that the day is over
I got a new sensation
In perfect moments
Impossible to refuse
Sleep baby sleep
Now that the night is over
And the sun comes like a god
Into our room
All perfect light and promises
Gotta hold on you
A new sensation
A new sensation
Right now
Gonna take you over
A new sensation
A new sensation
Dream baby dream
Of all that's come and going
And you will find out
In the end
There really is
There really is no difference
Cry baby cry
When you've got to get it out
I'll be your shoulder
You can tell me all
Don't keep it in ya
Well that's the reason why I'm here
Are you ready for a new sensation
A new sensation
Right now
Gonna take you on a new sensation
A new sensation
Hate baby hate
When there's nothing left for you
You're only human
What can you do
It'll soon be over
Don't let your pain take over you
Love baby love
It's written all over your face
There's nothing better we could do
Than live forever
Well that's all we've got to do
Hey now I'm gonna take a new sensation
A new sensation
Terça-feira, Dezembro 17, 2002
(Nick Bantock)
Se fosses um buda
eu seria a pedra
de tua fonte.
(Olga Savary)
Pensar com o corpo, sonhar de olhos abertos, cheirar com as mãos. Contradizendo-me, a favor de mim mesma, chorando de rir, o futuro presente. Mulher meio bicho, razão emotiva, tumtum à flor da pele, pocotós dentro de mim, a alma por fora, tudo ao contrário. Carne viva no espírito, casca às avessas, multidão que emudece, o sol à meia-noite.
Pra sempre acabou ontem; nunca mais até agora; eternidade começa hoje.
*
Black
(Eddie Vedder)
Sheets of empty canvas.
Untouched sheets of clay were laid spread out before me as her body once did.
All five horizons revolved around her soul. As the earth to the sun.
Now the air I tasted and breathed has taken a turn.
Oh, and all I taught her was everything.
Oh, I know she gave me all that she wore.
And now my bitter hands shade beneath the clouds of what was everything.
All the pictures have all been washed in black. Tattooed every day.
I take a walk outside. I'm surrounded by some kids at play.
Oh, I can feel their laughter. Oh, so why do I sear?
Ooh, and twisted thoughts that spin around my head.
I'm spinning. Oh, I'm spinning.
How quick the sun can drop away.
And now my bitter hands cradle broken glass of what was everything.
All the pictures have all been washed in black. Tattooed everything.
All the love gone bad turned my world to black.
Tattooed all I see. All that I am. All I'll be.
Oh.
I know someday you'll have a beautiful life.
I know you'll be a star in somebody else's sky but why,
why, why can't it be, oh, can't it be mine?
*
*
Can´t it?
Damn it, I´ll paint my own canvas! I´ll make my own bed!
Você vai ver o que eu sou capaz de fazer.
Mesmo sendo tudo tatuado - e eu tenho certeza de que é.
E se não fosse, provavelmente eu não estaria spinning do jeito que estou.
Porque já não seria essa realidade, mas aquela outra, e aquela outra não é, enfim. Não é.
E sei que você me entende.
Ah, eu sei que você me entende.
Yeah. We´ll see.
Tá. Quando eu disse "beibe, me tira daqui, urgentemente", não quis dizer "me leva pro hospital". Só pra esclarecer.
hehehe.
*
Ai.
*
Obrigada, Ted Hughes querido, por me aliviar inclusive nessas horas. Ouch.
Obrigada por ser um dos meus lobos - aqueles três ou quatro que me conhecem e que têm livre acesso ao meu mundo.
Aqueles pra quem eu quero mostrar meu mundo inteiro e meus jardins e dividir tudo o que é meu e que já nem é mais meu
porque isso não faz mais sentido.
Aqueles a quem eu amo tanto.
Ai.
*
Fever (trechos)
(Ted Hughes)
You had a fever. You had a real ailment.
"Help me", you whispered, "help me."
I made a huge soup.
Carrots, tomatoes, peppers and onions,
A rainbow stir of steaming elixir.
I spooned it
Into your helpless, baby-bird gape, gently,
Masterfully, patiently, hour by hour.
I wiped your tear-ruined face, your exhausted face,
All loose with woe and abandon.
O spooned more and you gulped it like life,
Sobbing "I´m going to die."
And I thought
How sick is she? Is she exaggerating?
"Come on, now," I soothed. "Don´t be so scared.
It´s only a bug, don´t let it run away with you."
What I was really saying was: "Stop crying wolf."
You were overloaded. I said nothing.
I said nothing. The stone man made soup.
The burning woman drank it.
Segunda-feira, Dezembro 16, 2002
Ow. Filmão. Filmaço. Enredo, atores (que atriz, Deus do céu!), sacadas e tudo o mais.
Só faltava mesmo uma bacia de pipocas e um beijador de boca do meu lado, de plantão.
Aí minha noite estaria completa.
*
sigh
***
Betcha By Golly Wow
The Stylistics
There's a spark of magic in your eyes
Candyland appears each time you smile
Never thought that fairy tales came true
But they come true when I'm near you
You're a genie in disguise
Full of wonder and surprise
And betcha by golly, wow
You're the one that I've been waiting for forever
And ever will my love for you keep growin' strong
Keep growin' strong
If I could I'd catch a falling star
To shine on you so I'll know where you are
Order rainbows in your favorite shade
To show I love you, thinking of you
Write your name across the sky
Anything you ask I'll try
'Cause betcha by golly, wow
You're the one that I've been waiting for forever
And ever will my love for you keep growin' strong
Keep growin' strong
A Woman Left Lonely, de Leech Raymond
Não, não tem nada pra entender, não. Nem eu entendo. Aqui não cabe entendimento nem nada, são só imagens e cheiros e gostos que eu já senti em algum tempo remoto mas não localizo, na verdade não localizo nada nem dentro da minha casa, na verdade mesmo nem dentro de mim. Não tem nada pra entender, não, nem pra tentar entender, nem pra racionalizar ou pra fugir ou pra seguir, não tem nada, simplesmente, ao mesmo tempo que tem tanta coisa. Nada pra que eu dê um nome, ou melhor, nada pra que o nome que eu dê sirva, nada vai servir aqui, nada se encaixa aqui, não é encaixável, não é nominável, não é nada além de sentível, e isso talvez me baste, sim, isso TEM que bastar, porque não tem nada além disso.
Sentível, é sentível. O resto é nada. Não tem nada pra entender.
*
Take me away from here. Agora, já, nesse minuto. Me leva praquele lugar que sempre foi meu e que eu ainda não conheço. Beibe, me coloca no avião e me leva pra lá, imediatamente. Aquele lugar que vai me reconhecer a hora em que sentir meus pés sobre seu chão, aquele lugar, beibe, que você sabe qual é. Me tira daqui.
Obrigada.
Domingo, Dezembro 15, 2002
"...E foram, enfim, curando um ao outro"
(Nick Bantock)
Sábado, Dezembro 14, 2002
Eu disse que não chegaria até amanhã sendo a mesma pessoa que acordei.
Na verdade não tinha acordado de manhã - fui acordada agora.
Acordei pra dentro de um sonho que nunca foi mentira.
Nunca nada foi real.
Na minha vida, nunca nada foi real. Até agora.
Então. De novo, aquela velha cilada. Meu cavalo, aqui; o trem, ali, vindo na minha direção.
E agora?
*
Deus, tinha esquecido o gosto disso.
*
*
Anyone to ride my wild horse, here?
Anyone at all? Uh, I´ve sort of imagined that.
Thank you anyway.
*
*
Ow, e o trem vem, a toda velocidade, e, caspita, acendo o farol na minha cara. E aí é só o tumtumtum que se ouve, junto com o pshpshpshpsh do trem. E o cavalo, estático, aqui, sob mim, e minhas pernas que apertam os flancos do cavalo, e minhas mãos suadas nas rédeas, os lábios tremendo de medo, e a quentura do cavalo, estático, sob mim.
*
*
Ah... e o que assusta e mata de medo DEFINITIVAMENTE não é o trem vindo em minha direção a todo vapor e com as luzes cruelmente cegantes acesas contra meus olhos. DEFINITIVAMENTE. Não tenho medo de trens.
*
*
O que assusta pra valer - o que mata de verdade -
é não saber o que o cavalo vai fazer quando o trem estiver a dois segundos de distância.
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O cúmulo do mistério. Também, quem manda fazer testes? Ainda mais num dia como hoje...

Which guy are you destined to have sex with?
brought to you by Quizilla
Orlando Bloom: you like them dead sexy, with an orgasmic accent and looks. *drool*
Orgasmic accent. ;-)))))) ai ai ai.

Which guy are you destined to have sex with?
brought to you by Quizilla
Orlando Bloom: you like them dead sexy, with an orgasmic accent and looks. *drool*
Orgasmic accent. ;-)))))) ai ai ai.
Hoje acordei francesa, de olhos negros e cheiro de incenso. Hoje minha cor é carmim, me abano com leques e ouço Vivaldi. Hoje não colho jasmins nas calçadas - eles é que me colhem do nada. Hoje não sei dançar ventre, mas danço flamenco e piso bem forte. Hoje as botas estão encostadas em algum armário do meu peito, e ando de sapatos pesados de dança e faço cloc-cloc-cloc tal um cavalo enfurecido. Hoje acordei francesa.
Mas por favor, não me analise por isso. Amanhã nada disso fará sentido.
De novo. Como hoje já não faz.
Sexta-feira, Dezembro 13, 2002
Redondo, brilhante. Sou o espelho em que te olhas - e por isso te olho também.
Na maior parte do tempo medito sobre a parede em frente.
Ela é rosa, pontilhada. Já olhei para ela tanto tempo,
Eu acho que ela é parte do meu coração. Mas ela oscila., segundo Ms. Plath.
A imagem no vidro, o brilho nos olhos, a separação pelo breu ou pela luz. Sem meios-termos.
É em mim que tu mergulhas tua mão, e é de mim que saem os dentes que cravam tua jugular.
Cortinas, rubras. Fecha o pano.
E não se sabe se isso é mágica ou não visto que não se sabe onde eu termino. Ou onde tu começas.
A verdadeira viagem do descobrimento não consiste em procurar novas
paisagens,
mas em ter novos olhos.
-Marcel Proust
Quinta-feira, Dezembro 12, 2002
O meu descompasso com o mundo chega a ser cômico de tão grande. Não consigo acertar o passo com ele. Já tentei me pôr a par do mundo, e ficou apenas engraçado: uma de minhas pernas sempre curta demais. O paradoxo é que minha condição de manca é também alegre porque faz parte dessa condição. Mas se me torno séria e quero andar certo com o mundo, então me estraçalho e me espanto. Mesmo então, de repente, rio de um riso amargo que só não é um mal porque é de minha condição. A condição não se cura, mas o medo da condição é curável.
(C. Lispector)
*
*
Esse trecho da crônica "Condição Humana", por si só, já é um absurdo. Mas se torna muito mais absurdo (ou não) depois de uma conversa tal como eu tive agora, desligando o telefone, pegando aleatoreamente um livro da estante, abrindo randomicamente em uma de suas páginas e caindo nesta crônica.
Tá, é como abrir um espelho na minha cara. A manca, aquela que sempre sonha estar sem sapatos, inclusive no meio de bailarinas de flamenco que por um triz não pisam em seus pés já encolhidos de aflição, aquela que sempre chega atrasada para as situações que já aconteceram e já passaram e deixam um cheiro no ar, a pessoa sem casca e mais sem malícia do mundo, a enrolável, a passável para trás, enfim, apresento-lhes, essa sou eu.
Só que eu não consigo na verdade nem tentar andar certo com o mundo, mas prefiro me esconder dentro da minha toca (ah, Deus, como eu ouvi nesses dois últimos anos que isso é errado...), dentro do meu peito, e observar tudo aqui de dentro. Porque nada que é externo a mim é meu. O que é meu, a minha casa, é isso que está dentro do meu peito, o meu tum-tum, o meu cavalo. É aqui que eu moro. Meu riso não é amargo e nem nunca vai ser, porque simplesmente não consigo amargar uma coisa cujo verbo principal sempre foi acreditar, cujo objeto sempre foi a paixão. Como rir amargo assim? Dá pra rir escandalosamente, de nada, sem motivo algum, e quebrar a cara e chorar como um bebê de um ano e meio, para um dia depois estar de novo rindo escancaradamente. Riso e amargura não andam juntos no livro que escrevo.
Fico aqui, esperançosa, quero me sentir igual a alguém no mundo, quero achar meu ninho. Não recuso paixão, não recuso permanência, não recuso imediatismo nem eternidade - não só não recuso como necessito. Estou me descobrindo. Sem dor, sem dó. Apenas e tão somente tirando, pele por pele, as cicatrizes do passado de um corpo que já nem sabia mais como era. Desfolho, caio no chão.
Ah, é outono em mim.
Então. Quer saber? Queria mudar o nome desse blogue. Não quero mais "doloredamore". Alguém sabe como posso fazer isso?
Ah, chega. Não acredito mais nisso, na verdade. Não acredito em dor de amor, não acredito em sofrimento, não acredito em angústia desse nível. Acredito em amor que faz ver estrelas, sim - na verdade só nesse tipo de amor. Naquele amor que assusta quando a gente pensa o que vai acontecer, quando a gente pensa na gente sem ele (ou ela). Acredito em beijo na boca, em mãos dadas, em risadas descompensadas na frente de qualquer bobeira. Acredito na sincronicidade de pensamentos e almas. Acredito em mudar um mundo pela pessoa amada, na disponibilidade e na urgência - quero, quero agora, e você, também quer, então vem pra cá, fica comigo, porque eu quero, quero agora. Creio em todas as promessas de eternidade desse tipo de amor - mesmo que se esvaiam no dia seguinte. Acho que quem nunca prometeu eternidade nunca amou. Quem ama acha que aquilo é eterno sim, e diz, sem medo, sem vergonha, e faz, e vai, e fica, e enlouquece, e faz absurdos. Mas não se machuca e não machuca quem ama.
Dá um medão, sim, mas se é amor mesmo não tem pra onde fugir - a pessoa te segura pela mão e teu coração se rasga em abertura e aí não se vê mais nada, monta-se no cavalo e vai-se embora.
Wanna be loved this way. Or no way at all.
Alguém me ajuda a mudar o nome do blogue? Porque "doloredamore", agora, pra mim, só faz sentido sendo nome de atriz de novela mexicana.
Grata.
Como a calmaria pode ser tão rubra? A cor de carmim do silêncio, tudo grita, e já é um turbilhão no meio do qual você já não tem mais nenhum controle sobre nada, e então pensa, controle exatamente para quê, mesmo, o que é que eu queria com controle?, e não dá tempo de você concluir o pensamento porque já está em cima dos cavalos que moram na tua alma mas agora te conduzem e é o corpo sobre a alma e é o lobo mordendo o calcanhar, vai, vai, vai, e não dá nem para olhar para trás porque você não sabe onde é o fim e onde é o começo de absolutamente nada, mas você com certeza NÃO é o centro de nada, e essa é a maior descoberta dos últimos tempos, inclusive talvez nada tenha centro, mas se tiver, o centro NÃO é você, você faz parte deste nada e por isso é tão tragado por ele, e tudo roda, e oroboros, e a serpente que come a própria cauda, a energia retornando à sua fonte primeva, e é tudo tão forte por ser tudo tão fraco, e é tudo tão perene por ser tudo tão simples, e os olhos fechados vêem mais que as aberturas, e o sonho é mais real que qualquer coisa desse mundo.
Quarta-feira, Dezembro 11, 2002
"Parece incrível que consegui me fazer nuvem
Diante de ventanias e do absurdo"
(C. Meireles)
O verdadeiro amor é livre. O verdadeiro amor traz felicidade, serenidade e paz de espírito. O resto pode ser ópio, pode ser tara, pode ser loucura. O amor é a vontade e o agora, é aquilo que dá e que não passa, é morrer de amor na hora, é não saber que existem relógios, não saber mais o próprio nome, não saber onde se está, é querer ficar com quem se ama imediatamente, é saber que quem te ama loves you back, na mesma intensidade que você.
To love and be loved in return.
É o verdadeiro amor. Simples assim.
"And you are?"
"Someone you may or may not wanna know."
(...)
"Ok, so there is a big battle coming. Are you sure you're on the right side?"
"Ow... at least I've CHOSEN a side."
Terça-feira, Dezembro 10, 2002
Porque é no vazio de me perder que já posso me encontrar.
É no não ter nada que reside essa conquista.
É na cega libertação que me deixo desvendar.
E é no não ser que já cabe esse "ser tua".
Abro com as mãos, te deixo olhar
te levo pra dentro devagar
sempre venho aqui nesse lugar
tomar xerez da tua boca
provar o sal do mar, mostrar um verso
provar um amor eterno
Onde a sua mão está agora
a minha você sabe bem
quanto mais tempo demora
mais violento vem
Falando absurdos
virando a noite
perdendo o senso
derretendo satélites
Falando tudo
voando a noite
ouvindo estrelas
derretendo satélites
Uma vez, dez, quinze, vinte, tanto faz
não tenho mais nada pra fazer
estou aqui pensando em você
deixando a água correr
provei o mar, mostrei um outro verso
provei um amor eterno...
(Paula Toller/Herbert Vianna)
Segunda-feira, Dezembro 09, 2002
Às vezes o que tememos pode também nos trazer a delícia.
Laughlin
No espelho, a estátua. A estátua de pedra, agora olhando em meus olhos. Onde termina a carne, onde começa a pedra? Não sei, não vejo, não sinto. O corte na pedra também produz vermelho, e já nem sei se esquenta. Os olhos da pedra choram quando chove você sobre ela, e ela não se mexe. Ela não pode se mexer, e sequer sabe se quer, pois já não sabe se pode querer. E chove o orvalho dos seus cabelos sobre a boca da estátua que só então descobre que petrificara de sede. E a rosa já não é a rosa posto que nunca foi a rosa, e a estátua só sabe da rosa por causa do espinho grudado em seu dedo. O espinho, ele também, petrificado. E chove você na estátua e a estátua chove em mim e meus olhos se abrem no espanto daquilo que não é dor e não é perda e não é angústia. Aquilo que chamam de rosa rouba o perfume das suas mãos e já não é espinho e o espinho então nunca existiu e o espelho entra em um jogo louco de refletir só a si mesmo e nem de longe e nunca mais a verdade que nem existe e a pedra já foi enterrada.
E sei, e vejo, e sinto. É a carne, é a carne. A carne vermelha que orvalha.
(Foto: Kent Weber)
"...Or maybe a smiling wolf comes up close
While you doze off, in your chair, and gives you a kiss,
A cold wet doggy kiss, and then you know
You have been CHOSEN, and it’s no good
flailing awake bawling ‘No!’
Wherever the wolf is, she just goes on smiling -
It’s an eerie feeling.
Or maybe deep in your sleep a mountain looms,
With rumbling and lightning and misty glooms,
Whispering ‘Do you love me
As much as I love you?’ and you wake
With your nose bleeding, and all one terrible ache
Like a worn-out mountaineer,
And still feeling the precipices near.
(...)
And if you’re a girl you’re no better off.
Before somebody normal can make you his wife
A Siberian tiger snatches you up in your sleep
And carries you to his cave under the glacier.
Then when you wake, while you dress and comb your hair,
And even long after when you go out shopping
You have only to close your eyes and you hear
Your tiger breathing near.
Woe betide any man then who enters your house.
He will be removed by your abnormal spouse.
(...)"
(Ted Hughes)
Quinta-feira, Dezembro 05, 2002
*
RECOLLECT
Meu velho espelho
Desconstruído;
Minha imagem
Fragmentada
Em pedaços cor de chumbo.
Ajoelhada em meio ao vidro
Colho cacos.
Dois ou três reflexos grudados em meu dedo.
Levo-os à boca,
Mastigo-me com gosto
-antropotrágica-,
Absorvo minha essência
E me recompleto.
Ah Deus, e é uma crescência de sentimentos e confusões e barbatanas prateadas de peixes que se debatem em meu estômago e me aflige e me apavora e me chama cada vez mais pra perto e quando eu vejo já não vejo mais nada e um meu calcanhar sendo mordido por um lobo, o outro preso à pedra eterna de minh´alma, minhas mãos que só roçam aquilo que eu devo segurar, mas nem sei o que é porque tudo é úmido e tudo é escuro e gritos-trovão chuveiam em meus ouvidos tal lâminas de aço e corro e corro e corro e saio do lugar?
Crescência, querência. Imensas.
E o lobo que me sangra. E já não é pedra e já nem é perda, é o lobo que me sangra e me urge. E sou eu que confio. Que confio.
Quarta-feira, Dezembro 04, 2002
The Danaid, A. Rodin
(Essa obra de Rodin tem como musa a também escultora Camille Claudel...)
Manter o gosto aceso sobre a língua, pelo máximo de tempo possível, tentando mostrar para alguém how it tastes like. Mas como mostrar para alguém o gosto de algo do qual nem se sabe o nome, enfim?
Isso vira febre e escalda a garganta.
Lambo meus dedos, então. Não vou guardar meus segredos embaixo da minha língua. Que colem em minhas digitais, então, e um pouco deles possa grudar como glitter em qualquer coisa que eu tocar. Fragmentada, sem dúvida, mas enfim completa por conseguir sair de mim.
Acho que para mim não existe algo que dê tanto medo e me atraia tanto quanto esse fenômeno. Queria muito, muito, ver um eclipse. Lembro que um dia quase vi - mas em SP tudo é sempre "quase", é incrível. Ou por falta de tempo, ou por falta de grana, ou por falta de condições climáticas...
Lembro do meu coração na boca. Meu grande amor, o sol, ali, pronto a ser eclipsado. Isso me dava um medo absurdo - seria noite em pleno dia, e só de pensar nisso meu coração já se "ensombreava" e se assombrava também. Mas ao mesmo tempo era ele, o sol, e eu tinha que estar ali, ao lado dele... era minha obrigação, entende? Me sentia um pouco traidora se não estivesse ao lado do meu amor naquela hora. Falando assim, parece bobo. Mas eu já nem era mais criança... e o que eu sentia não era nada bobo.
Eu com o filme velado na mão... do lado de fora da agência de publicidade em que trabalhava. Tremendo, por dentro; sorrindo, por fora. Típico de Alessandra, inclusive. Mas a situação que se seguiu foi mais clássica ainda. Antes de a Lua encobrir o Sol, uma nuvem chegou e encobriu os dois. Fim da festa. Acabou.
Fui pra dentro, trabalhar. Um alívio esquisito tomou conta de mim. Não tive que ver meu Sol se apagar. Mas também não vi nada, e foi uma mistura de alívio e de tristeza, e do reconhecimento da minha imensa pequenez. E uma lágrima minha manchou o texto que eu estava escrevendo, para o cliente estressado.
Tudo isso parece metáfora. Pode ser usado como metáfora, também. Mas não é. Minha vida é assim, uma metáfora ambulante. Quer dizer, acho que a vida de todo mundo é assim. Mas a gente pode desenvolver olhos clínicos pra isso, ou optar por máscaras de vedação. Eu prefiro ver. Pra saber (inclusive) pra onde fugir, e atrás de que nuvem me esconder, se preciso...
Terça-feira, Dezembro 03, 2002
Foto: Christian Rollinger. Escultura: Maillol.
E você estava ali, enraizada. Olhando para o chão, para seus pés, chafurdados na terra firme. Tudo tão firme que nada girava, e já cresciam plantas ao seu redor. E então bum!, e tudo se transformou e transmutou. Sua raça não mudou, você ainda é pedra, não recusa nada, não absorve nada. Mas você já não consegue mais olhar para a o chão nem que tente. Você foi revirada. Agora a única visão que tem é o céu. Olhando pra cima, revirada, meio desesperada. Seus olhos doem e doem e doem e lacrimejam luz. E você fica assim por tanto e tanto tempo e então entende que tem que olhar para o céu porque é de lá que virão as respostas para as perguntas que você jogou para o alto em forma de gritos e medos e angústias e paixões. As respostas, você não sabe como vêm: podem chover, trovejar, iluminar ou nem ser. Mas sabe que elas virão. Chovendo, trovejando, iluminando ou nem sendo, elas virão do mesmo jeito. E cairão sobre seus olhos que nem mais piscam de tão secos pelo sol. E não vai mais dar tempo nem de você dizer "sou pedra, não absorvo", porque quando vir, já absorveu. E vai ser assim. Back home.
(Matin, de Alain Daussin)
O que se faz com uma pessoa que escreve desse jeito? Canoniza-se? Exalta-se?
Não. Lê-se, absorve-se, deixa passar por dentro da gente, e o que fica é porque calou.
Esses dois primeiros poemas me atravessaram e calaram aqui dentro. Talvez um dia eu publique o resto dos poemas do "Moderato Cantabile". Mas agora, só esses dois. Escorrendo, as palavras desse texto, por entre cheiros e lembranças do que passou e do que ainda não veio. O mistério do tempo. O mistério de tudo.
Moderato Cantabile
(Hilda Hilst)
I
A idéia, Túlio, foi se fazendo
Em mim. Era alta a lua, e aberta
A porta escura da minha casa vazia.
Te pensei. E na minha alma fez-se
Um gosto licoroso, mordedura.
Mais doce do que a própria ventura
De existir
E te pensando foi subindo a lua
E vivendo meu instante fui te vendo
Da minha vida cada vez mais perto.
A idéia, Túlio, redonda, esboçada
Em azul, em ocre e sépia
Era a tua vida em mim, circunvolvida.
II
E circulando lenta, a idéia, Túlio,
Foi se fazendo matéria no meu sangue.
A obsessão do tempo, o sedimento
Palpável, teu rosto sobre a idéia
Foi nascendo
E te sonhei na imensidão da noite
Como os irmãos no sonho se imaginam:
Jungidos, permanentes, necessários
E amantes, se assim se faz preciso.
Tocar em ti. Recriar castidade
Não me sabendo casta, ser voragem
Ser tua, e conhecendo
Ser extensão do mar na tua viagem.
Segunda-feira, Dezembro 02, 2002
But when the moonlight washes over our bed
and the road slows
A lonely siren screeching 'round the bend
The cool air blows
Raising the hair on my skin
We come face to face
Try to let each other in
(C. Lauper... ainda!)
Falando em Cyndi Lauper...
Quem só se lembra de True Colors e Goonies e Girls Just Wanna Have Fun,
ouça essa música, cantada absurda e maravilhosamente por ela... Ouça agora. Neste minuto. E veja o que é uma voz maravilhosa e uma interpretação sublime, dentro de uma música visceral. Deus. Amo essa música.
Amo essa mulher.
I´m Gonna Be Strong
I can see
You're slipping away from me
And you're so afraid
That I'll plead with you to stay
But I'm gonna be strong
And let you go your way
Love is gone
There's no sense in holding on
And your pity now
Would be more than I could bare
But I'm gonna be strong
And pretend I don't care
I'm gonna be strong
And stand as tall as I can
I'm gonna be strong
And let you go along
And take it like a man
When you say it's the end
I'll hand you a line
I'll smile and say
Don't you worry I'm fine
But you'll never know darling
After you kiss me goodbye
How I'll break down and cry.
Quem só se lembra de True Colors e Goonies e Girls Just Wanna Have Fun,
ouça essa música, cantada absurda e maravilhosamente por ela... Ouça agora. Neste minuto. E veja o que é uma voz maravilhosa e uma interpretação sublime, dentro de uma música visceral. Deus. Amo essa música.
Amo essa mulher.
I´m Gonna Be Strong
I can see
You're slipping away from me
And you're so afraid
That I'll plead with you to stay
But I'm gonna be strong
And let you go your way
Love is gone
There's no sense in holding on
And your pity now
Would be more than I could bare
But I'm gonna be strong
And pretend I don't care
I'm gonna be strong
And stand as tall as I can
I'm gonna be strong
And let you go along
And take it like a man
When you say it's the end
I'll hand you a line
I'll smile and say
Don't you worry I'm fine
But you'll never know darling
After you kiss me goodbye
How I'll break down and cry.
Starry Night, Van Gogh
Cavalo, cheiro de baunilha, cores alaranjadas, letras do Chico, orações a Deus, música da Cyndi Lauper pra cantar bem alto, dançar "Express Yourself", da Madonna, loucamente, água doce, cachoeiras, acampamento no meio do mato, dança do ventre, anéis de prata em todos os dedos das mãos, delineador, abrir a janela e gritar, sol por trás das nuvens, cachorro, abraço, churrasco, dança de salão, céu cor de violeta, Cecilia Meireles, encher o carro de jasmins caídos na calçada, cheiro de chuva no asfalto quente, minha cidade, outras cidades, outros países, Ted Hughes, Christian Bobin, filmes de vídeo, programas idiotas, mudar a cor do cabelo, arco-íris, coragem, xales, tomar sol na pedra, acordar com o sol no rosto, karaokê, dormir embaixo do travesseiro, edredom, filme italiano, filme espanhol, ficar embaixo d´água até perder o fôlego, lobos, rir até chorar, chorar até rir, botas pretas, festa à fantasia, fazer surpresas, estrelas no céu, brincos de estrelas, anéis de estrelas, tudo de estrelas, acreditar.
*
Compromisso comigo mesma: pelo menos três coisas dessa lista todos os dias. Religiosamente.
Domingo, Dezembro 01, 2002
Lisbon Revisited
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) - 1923
Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estheticas!
Não me fallem em moral!
Tirem-me d'aqui a methaphysica!
Não me apregoem systemas completos, não me enfileirem
conquistas
Das sciencias (das sciencias, Deus meu, das
sciencias!) -
Das sciencias, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se teem a verdade, guardem-a!
Sou um technico, mas tenho tecnnica só dentro da
technica.
Fóra d'isso sou doido, com todo o direito a sel-o.
Com todo o direito a sel-o, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, futil, quotidiano e tributavel?
Queriam-me o contrario d'isto, o contrario de qualquer
coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a
vontade.
Assim, como sou, tenham paciencia!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sòzinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sòzinho.
Já disse que sou só sòzinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!
Ó céu azul - o mesmo da minha infancia -,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outr'ora de hoje!
Nada me daes, nada me tiraes, nada sois que eu me
sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abysmo e o Silencio quero estar
sòzinho!
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) - 1923
Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estheticas!
Não me fallem em moral!
Tirem-me d'aqui a methaphysica!
Não me apregoem systemas completos, não me enfileirem
conquistas
Das sciencias (das sciencias, Deus meu, das
sciencias!) -
Das sciencias, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se teem a verdade, guardem-a!
Sou um technico, mas tenho tecnnica só dentro da
technica.
Fóra d'isso sou doido, com todo o direito a sel-o.
Com todo o direito a sel-o, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, futil, quotidiano e tributavel?
Queriam-me o contrario d'isto, o contrario de qualquer
coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a
vontade.
Assim, como sou, tenham paciencia!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sòzinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sòzinho.
Já disse que sou só sòzinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!
Ó céu azul - o mesmo da minha infancia -,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outr'ora de hoje!
Nada me daes, nada me tiraes, nada sois que eu me
sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abysmo e o Silencio quero estar
sòzinho!
Foto: Clergue
Dispair.
O desespero que dispara destemperadamente. Uma brincadeira imbecil com a palavra para poder esconder por um minuto a dor que arrebenta e que não permite brincadeiras. Um instante petrificado, boquiaberto e ensandecido, um instantâneo que a tudo olha e tudo teme mas que não se percebe e que não se vê como um todo. Um dia foi o todo; hoje, apesar de tão arraigado e tão acorrentado ao calcanhar do outro, sua extensão, seu apêndice, é o nada.
Um nada preso a um outro. E o outro parte. E o nada fica. Fica o vazio. Fica o nada.
Dispair.