Sábado, Novembro 30, 2002


Van Gogh

3horas34minutos26segundos27 28 29 30...

A insônia é um bar vazio.
Um bar vazio cujos frequentadores são fantasmas de pensamentos pesadelos pesos penados.
Olhos abertos até parar de sair lágrima.
Coração tum-tum, quanto medo, Deus, que medo absurdo é esse que só sua à noite, que só sai no escuro, onde mora isso, embaixo da cama que nem tem "embaixo" ou no fundo de mim que nem tenho "fundo"?
Ah, feche as portas, bar vazio, feche os olhos, Alessandra, get a life, sleep at night, mas quem disse que é simples assim? Não dá.
Tento fugir da insônia, também, mas as ovelhas que eu contava fugiram de mim.

Sexta-feira, Novembro 29, 2002


Tá, não cumpri o que eu disse. Ou de certa forma, cumpri. Porque não sou aquela que antes escrevia aqui. Talvez a escrita daqui pra frente vá denunciar isso, vá delatar o contrato rasgado, seja lá o que isso significa. O contrato que eu rasguei comigo mesma, o contrato que foi rasgado das minhas mãos por alguém que não eu, o contrato, enfim, que foi rasgado - e isso vai fazer toda a diferença, na escrita, no sangue, na vida. A respiração já não tem mais o mesmo ritmo, imagine só. Chegaria a ser engraçado, se não fosse tão triste, enfim. E a árvore que tenta sair do lugar, talvez viajar, talvez se esconder, e não consegue, porque é imensa, e velha, e tão enraizada que dói. As raízes que lhe deviam dar estabilidade e segurança dóem. Chega a ser engraçado, mas até rir dói nessa altura do campeonato, então fazer o quê? Contemplar? Ah, contra minha raça.
Qual minha raça? Depende do lado de onde se olha. Se olhar por dentro, sou da raça da pedra dura, eu e o Bosco. Se olhar por fora, a árvore enraizada, plácida, mas tão covardemente dolorida, nesse momento. A árvore que sangra, oh, milagre, ela sangra. Milagre o caramba. Oh, ela escreve, vem ver o que ela escreve. Por favor, pára com isso, cara. Eu sangro e escrevo e pode ter certeza: se eu tivesse a opção de não escrever e de não sangrar eu certamente escolheria não escrever e não sangrar. Mas aqui não é opção. É raça. Não que eu vá sangrar ad eternum, pelo amor de Deus, espero mesmo que não. Mas agora dói mais que qualquer outro dia, dói e não estou chorando sobre o passado distante, que esse espero que esteja cada dia mais distante mesmo, já aprendi que não há redenção a partir dele (não é? aprendi, olha só a ironia), mas sobre coisas das quais ainda sinto o cheiro sobre a pele, cujo gosto ainda está aqui, olha, sobre minha língua, e tento engolir para digerir mas não vai. Não desce. E quando dói sangra mesmo e arde e mortifica, ora essa, como não mudar o ritmo até da respiração? Porque essa mortificação é palpável, e é tão sobre-humana que chega a ser humana de tão inexata e tão ridiculamente cruel e misteriosa e tão intrinsicamente intensa.
Ora, é minha raça, essa. A que sangra, a que sente. Mas a que não contempla.




Agora é como depois de um enterro
(Cecilia Meirelles)



Quarta-feira, Novembro 27, 2002


Acabou.
Dói na alma. Dói na pele. Na carne, é como vidro.
Não escrevo mais aqui. Não quero mais escrever. Acabou.
Peço desculpas principalmente ao Sounds, que me ajudou tanto com o template da página.
Peço desculpas a quem vinha aqui talvez buscando alguma coisa poética ou doce. Não dá mais, não tenho poesia nem nada doce dentro de mim agora. Acabou.
Esse blogue, nesse pouco mais de um mês, sempre foi uma parte viva, minha, extensão do meu punho, meu sangue. Mas não sinto mais vida pulsando aqui, agora. Acabou.
Não dá pra escrever sobre "azuis" ou "amarelos" ou "laranjas" ou "roxos" se agora só enxergo uma cor. E não é nenhuma destas. Não dá pra cantar uma música bonita, colocar a letra aqui. Não ouço mais melodias, minha garganta está presa, mortifiquei.
Enfim, é isso. Não dá mais. O blogue era eu.
Mas o blogue morreu.
Carinhos em todos.

O homem ensinou, por muito tempo, o pássaro a perceber suas asas. A abri-las. A voar. Mesmo nos dias mais frios. E o pássaro se encantou com a possibilidade de talvez um dia conseguir se sentir, novamente, um pássaro.
Dia após dia. Voa, voa, voa.
Um dia o pássaro acordou de um sonho em que voava. E quando abriu os olhos, viu que estava mesmo voando. E não era mais sonho, e ele voava, e subia, cada vez mais alto.
E quando sobrevoava, em meio a gritos de prazer, uma montanha cheia de neve, sentiu uma ardência. Uma ardência aguda, no peito. No meio do peito que seu dono tanto afagava, uma ardência que ficou insuportável. Ele ficou zonzo, teve vontade de gritar, mas não conseguia. Procurava seu dono para voltar para seus braços, não conseguia mais ver nada. A dor o cegava.
Caiu sobre o branco da neve. Um branco que foi se tingindo, aos poucos, da cor do vinho de que seu dono tanto gostava. Um vermelho tão lindo. Tão absurdamente lindo, seu dono dizia. Ficou feliz, muito feliz, apesar da dor. Tentou chamar por seu dono. Olha, olha, a tua cor, vem ver...
Mas a felicidade durou só até o milésimo de segundo antes de perceber que a tinta que manchava o frio era o calor do seu sangue.
A mesma pessoa que lhe ensinou a voar lhe dera um tiro no coração.
*
*
"Tu és responsável por aquilo que cativas"
(A. Saint-Exupery
)

Terça-feira, Novembro 26, 2002


Parece incrível. Às vezes me enredo na teia de mágoas e raivas de outras pessoas e não consigo escapar disso. Sangro no verbo, escrevendo, e por isso esse espaço me faz bem. Também por isso. Hoje me enredei na amargura de alguém. Mas daqueles alguéns que te despejam a amargura em cima, não daqueles que sabem que são amargos e te relatam a amargura. Esses alguéns dos quais falo agora despejam, tentam se livrar da amargura jogando tudo em cima de você, como se vissem você como um poço onde jogar isso, toma, isso é teu, não me pertence. Ah! Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!
Eu não consigo ainda me livrar disso do jeito que devia. Não consigo dizer não, isso é TEU, e não MEU. Quando vejo, estou na teia da aranha, como insetos, e o único som que se ouve é o roçar das asas. Amargura, teia de amargura, preciso ser parede. Ela precisa vir pra cima de mim e eu preciso dizer não, obrigada, fica contigo, não é meu. Não consigo ainda. Ainda.
Minha agressividade, nessas horas, literalmente some. Eu fico procurando, procurando, procurando um lado agressivo em mim com o qual possa construir rapidamente um muro, um grito, um fechar de olhos, e simplesmente não consigo. Não quando vem de certas pessoas, não quando essas pessoas não me enxergam. Sei que o problema é, afinal, meu. As pessoas não fazem com você o que você não permite que elas façam. Mas quando o ciclo já vem há tantos anos assim, é mais difícil cortá-lo. A teia parece cada vez menos elástica, mais resistente, mais arame. Farpado. Campo de concentração de pessoas nas quais jogar amargura, ok, ativado, vamos lá.
Deus. Foi só um desabafo. Me sinto melhor agora.
Continuando a ENQUETE "Qual personagem de filme/livro você seria?", publico a resposta do Hippie Killer (pow, HP, faz um blogue, cara).
Ele seria o Mark Renton, do Trainspotting.


A razão poderia ser traduzida pelas primeiras falas do personagem no filme:
Choose life. Choose a job. Choose a career. Choose a family, Choose a fucking big television, Choose washing machines, cars, compact disc players, and electrical tin openers.

Choose good health, low cholesterol and dental insurance. Choose fixed-interest mortgage repayments. Choose a starter home. Choose your friends.

Choose leisure wear and matching luggage. Choose a three piece suite on hire purchase in a range of fucking fabrics. Choose DIY and wondering who you are on a Sunday morning. Choose sitting on that couch watching mind-numbing sprit-crushing game shows, stuffing fucking junk food into your mouth. Choose rotting away at the end of it all, pishing you last in a miserable home, nothing more than an embarrassment to the selfish, fucked-up brats you have spawned to replace yourself. Choose your future. Choose life.

But why would I want to do a thing like that?


E você? Quem você seria? Respostas para alesie@uol.com.br


Segunda-feira, Novembro 25, 2002


Foto: Clício Barroso

Falo teu nome: anoiteço.
Tomara chovesse em ti feito tempestade sobre o mar.
*
Te peço então: adormece.
E com as roxas pétalas do teu sono, cobre de vida essa angústia.
*
Vem, tira de mim minhas teias
E põe veias no lugar.

Foto: Larissa Grandi

Estranha ausência essa tua que me corrói as entranhas e que é tão presente que se esquece ausência, aquele nada que preenche salas quartos avenidas, que me imobiliza à noite e cujo peso é denso e úmido e todo. Aquele lugar vazio que de tão vazio locupleta todas as feridas e crateras e dodóis que guardo comigo e levo aqui dentro. Tua ausência, tão presente.
Tua ausência estranha. Como tudo em você, completa. Ela também.


Domingo, Novembro 24, 2002


Daybreak, de M. Parrish

Daybreak. A aurora. Quando não se sabe se é manhã ou se anoitece. Quando a carne ainda é sombra, a sombra é nada, e o nada parece tangível. Nada é direto, tudo é velado; nada é extremo, tudo reside no meio. No espaço. No vazio da roda, e não no aro. Uma hora taoísta, quando do inimaginável brota a criação. A aurora. A hora perfeita para encontrarmos nossos pontos comuns - pois que nessa hora não somos um e outro, mas sim duas metades. E podemos, enfim, ser um.
*
Que nossa vida seja isso. Uma eterna aurora, onde possamos, no escuro-claro de nossas casas, tatear nossa inocência e nossa estupidez, esculpi-las, transformá-las. Quantas vezes a gente quiser. Parasempremente.

Ecstasy, de M. Parrish

Palavras tecidas para meu beibe


E eis que lá estava a jangada feita e apetrechada com uma vela de tecido resistente, que as ninfas haviam confeccionado. Calipso leva Ulisses para a gruta, dispensa-lhe todos os cuidados dignos de um herói e o conduz à praia. Ulisses corta a corda e salta para bordo.
*
Por fim, parte. Parte e liberta-se, isto é, renasce homem.
*
E prefere Penélope a Calipso, pois que Penélope é humana, e portanto imperfeita. E o espera há tanto tanto tanto tempo, tecendo e destecendo a mesma manta, à beira do mar. Olhando esperançosamente para o mar na praia de Ítaca, para poderem bordar, agora juntos, dias diferentes daqueles até então vividos.
*
E o que tecem juntos não vai mais ser destruído. Por nada no mundo. Porque neste tecer eles colocaram, a quatro mãos, fios de esperança, lãs de momentos, arremates de confiança e botões de vontade. E isso já não pode ser destecido. Não mais.



Sábado, Novembro 23, 2002


La Nuit Etoilée, Van Gogh

Essa é pra vocês, Sounds e Soul, o casal mais apaixonado da net (desculpe, eu babo meeeesmo!).
Pela força que deram aqui no template do blogue, com tanto carinho. Mando pra vocês o desejo de uma Nuit Etoilée, uma noite bem estreladinha, que, pelo tamanho do amor que vocês têm um pelo outro, não interessa nem se é dia nem se é tarde nem se é madrugada nem se chove nem se troveja nem se está nublado: a vida de vocês sempre vai ser uma noite estrelada. E ponto.
Obrigada, amigos. Quando vierem a SP, tem um vale-jantar esperando por vocês.



LEVOTTOMAT. Parece "Levou Tomate", né? Mas não. É um filmão.
Começa que é um filme finlandês e (lógico) é falado em finlandês. Não sei se pelo meu ofício de tradutora, me fascina quando ouço uma língua da qual não entendo absolutamente nada. Pra não ser tão absoluta, entendia os ok e também quando a menina entrega para o cara uma torta de amêndoas - ela diz algo parecido com mandorle, amêndoas em italiano. Mas fica tipo mandorleriraprakrovraski. Muito muito muito engraçado.
A história é a de um cara (chamado Ari!) garanhão-supergalinha-médico-que-faz-o-maior-sucesso-com-as-meninas mas que não consegue gostar de nenhuma. Chavão? Não. Ele não suporta mais isso. Ele diz que tudo na vida dele é perfeito, só que ele não sente nada. Eu não sinto nada, ele diz. E não chora, e não move um músculo do rosto - afinal, ele não sente nada. Adorei, adorei a idéia desse personagem, achei genial o cara passar tipo uma hora e meia do filme sem mudar a expressão facial - e olha que é de propósito e ele não é o Richard Gere, hein?
*
Aí ele conhece a loira aí da foto, a Tina. Superatriz, diga-se de passagem: Laura Malmivaara. Bom, aí eu pensei, agora ele se apaixona por ela e blablablá... Não. Ele não se apaixona. Eles começam a namorar, o cara tenta desesperadamente se enquadrar em algum ambiente normal, tipo amigos da namorada (que são quase uma família para ela). E, sabe Midas ao contrário? Ele meio que destrói aquela estrutura "fraterna", ele estraga tudo - e continua sem sentir nada pela menina, que, além de maravilhosa, é absurdamente gente-fina e o ama mesmo assim... Olha que coisa mais desesperadora para o cara - ele, além de não conseguir SENTIR nada, ele começa a DESTRUIR o que os outros sentem (ou têm). E ele não é sacana ou mau-caráter; é super-sincero e nunca mente quando lhe perguntam alguma coisa.
*
Procure pelo filme em uma boa locadora. Dá pra pensar bem na história. Preste atenção quando ele conversa com uma amiga da Tina (olha que engraçado: ela é uma sacerdotisa cristã, basicamente uma antagonista ao personagem dele, e é a única que consegue entendê-lo em sua essência), em cima de uma pedra, na praia, ao cair da tarde, e diz: "A felicidade não é uma coisa que se merece". Depois me diga o que entendeu com essa frase, no contexto do filme. Pra mim foi muito bom.


P.S. Tenho até vergonha de dizer o nome do filme em português, mas lá vai. O Insaciável. Tá. Parece pornô. Mas seja cara-de-pau e peça na sua locadora. Vale a pena.

Sexta-feira, Novembro 22, 2002

A ENQUETE começou a render respostas.
O Terry respondeu que, se ele fosse um personagem de filme ou livro, ele seria Spike - Cowboy Bebop.

Razão: "Porque todo mundo diz isso".
Valeu, Terry... Aguardo outras respostas!
Vamos montar um universo paralelo...


Quinta-feira, Novembro 21, 2002


Essa noite a saudade é um buraco.
*
Estou com tanta saudade que parece que tem um
poço sem fundo dentro da minha alma que quanto
mais água de palavras e carinho a gente põe mais sedenta
a alma fica e fica molhada de verbo e ensanguentada
de vontade e dói e pulsa e queima e chama porque a alma da gente
não passa de uma criança que grita pelo leite da vida que
é quem a gente ama e aí a gente trata de cantar uma lullaby
pra tonta da alma pra ver se ela se acalma -
mas a alma não acalma.
*
Beibe, posso ser piegas muito muito muito piegas hoje?
Me perdoa, minha alma é kitsch desde criancinha.
*
Estou um deserto, beibe.
40 graus nesta cidade cheia de gente por todos os lados
e minha alma morrendo de solidão e de frio, de lábios rachados e hipoglós na boca.
Vem logo que essa sua falta já deu o que tinha que dar.

I´m starving.



Oquei, vamos testar
o que aprendi (acho) hoje?
Vou tentar colocar aqui
um desenho (pleeease be condescendent)
que fiz há muito tempo. Época em que me
apaixonei perdida e desvairadamente pela
dança. When I´ve been rescued
from total crazyness...




Queria fazer uma ENQUETE com as
pessoas que me visitam.

É o seguinte.
*
Se você fosse personagem de um filme/livro/
novela/peça de teatro, quem você seria?

*
Não quero saber quem você GOSTARIA de ser,
mas sim quem você acha que seria, e por quê.
Você pode me responder isso por email
(alesie@uol.com.br)? As respostas eu vou editar
e postar aqui.
*
Eu seria Angela Chase, da My So-Called Life...
O porquê, vou resumir em uma frase dita por essa personagem,
no episódio chamado Pressure.
*
"People always say you should be yourself, like yourself is this definite thing,
like a toaster, or something. Like you can know what it is, even.
But every so often, I'll have like a moment, where being myself,
and my life right where I am is, like, enough."


Aproveitando o embalo e o espírito generoso de amigos como T1X, que me ensinou a colocar fotos e links nos posts, e Sounds, que está gentilmente estudando meu template, gostaria de fazer algumas perguntas:

1. Como colocar imagens pessoais aqui, sem ser direto da web? Por exemplo, coisas que eu escaneio, ou fotos?
2. Que programa eu preciso ter (e saber mexer) para fazer um "fansign" pra mandar pros meus amigos?

A Equipe Pensieri agradece desde já.


Quarta-feira, Novembro 20, 2002

Então.
Todo mundo faz testes o tempo todo
neste universo de blogues.
Eu nunca tinha feito.
E resolvi fazer.
Olha só o que deu.

melora
What Amazing Woman Are You Most Like?

brought to you by Quizilla

Ótimo, não? Pois é. Não entendi.
Não sei quem é a moça, não conheço o conjunto e não sei se é bom ou ruim.
Vou ter insônia à noite.
Obrigada.



E gira.
E gira, e roda, coberta de lenços e véus.
Em cada rodopio na amplitude, um sorriso.
Em cada passo descalço, um vôo.
*
Mãos, braços, olhos, boca,
nada mais é parte, tudo é todo,
um todo que brilha ouro e já não é,
um tolo brilho que enfim é por já não ser.
*
Toda a beleza da bellydancer, beibe.
Quero dançar pra você.



(Foto: Pamela Hanson)

Meu beibe é esse.
É aquele que me dá a mão.
Aquele que me sorri quando eu acordo com o sol que bate
no meu rosto quando ele abre a janela de manhã
e que ri alto comigo quando não tem nada do que rir.
Aquele que acredita nas leis que um tal de Murphy escreveu
mas que finge que não acredita pra eu não ter medo.
Ele me protege, sabe? Quando ele sabe quem ele é, ele me protege,
e me protege tanto, e me dá beijinhos nos cabelos e me cheira e diz
que eu tenho cheiro doce e me dá perfumes que combinam comigo
e fala pra mim que quer comer carne comigo em qualquer
lugar desde que seja simples e comum e igual a todos os outros lugares.
Bem, enfim, isso é tudo o que ele não é, porque ele não é simples
nem comum nem igual a ninguém, mas faz questão de tentar ser,
mas não é e não é, porque ele sabe ser homem e olhar através da pose
de diva que eu faço pra ele gostar de mim e ele sabe ver a mulher-menina
com algodão-doce na mão direita e um relógio no pulso esquerdo que bate
descompassadamente com os tuntuns e sabe dizer que é dessa menina
que ele gosta e que essa menina é a mulher sexy que ele quer, com cabelos
que cobrem os olhos, e não aquela diva estúpida de plástico para trás da qual às vezes vou porque
todos os outros me disseram que gostavam mas who gives a damn?,
afinal aqueles outros eram todos os outros que não eram ele e isso realmente
não me importa mais, porque eles não eram macios e não falavam baixinho
e não queriam algodão-doce ou cabelos no rosto ou tuntuns
e gostavam mais de espelhos do que de carnes.
*
Meu beibe é assim. Ele é único, no meio da multidão ele é único,
e brilha sob camisas escuras porque é único, e você pode vê-lo
no meio de um estádio de futebol porque ele é único. Só ele é meu beibe.
*
E ele tem que saber disso porque eu quero que ele acredite.
Ele precisa acreditar nisso. Ele precisa perceber que ele não é comum,
Deus não fez com que ele fosse comum, ah, e agora?
Ele tem alma de poeta e não quer ver, e agora?
Agora, beibe, viva com isso.
*
É na tua singularidade que seremos plural.


Terça-feira, Novembro 19, 2002


(Salvador Dalí)

Tenho duas irmãs. Mas ao longo da vida
consegui conquistar algumas outras.
E alguns irmãos também.
*
Minhas irmãs são aquelas que sentem meu sangue
dentro do seu e gargalham e choram comigo.
Meus irmãos não se incomodam em me ver como
"one of the boys", e a gente se diverte falando besteira
como meninos fazem, dando conselhos um pro outro
e rindo alto de piadas imbecis.
*
Minhas irmãs também voam comigo de vez em quando,
quando precisamos voar.
E meus irmãos, todos eles, sabem falar de poesia
(meu amor também sabe, e como...
mas isso fica para outro post).
*
Um destes meus irmãos, o mais novo deles (na ordem
de reconhecimento alma-genético, eu diria), escreveu pra
mim um poema divino.
Mas além de Deus me dar mais esse irmão, Ele
caprichou: esse meu irmão, além de ser poeta, é poeta na língua
de Shakespeare, e me conhece e gosta de mim e me dá conselhos
legais e é tão gentil e tão poético até quando fala de pedras.
E ele vai escrever o prefácio do livro que... Tá bom, isso também
é para outro post.
*
Queria postar aqui o poema que ele me escreveu. Mas como ele
é escritor, não faria isso sem que ele autorizasse.
Brother, I´m waiting for your yes...
*
Então aqui vai um pedacinho do que ele me escreveu
para meu aniversário.
Queria que você que ama literatura lesse com atenção.
Porque esse poema mudou minha vida, de certa maneira.
Aqui dentro está descrita exatamente a minha relação
com as palavras. O que elas são para mim, o que sou
a partir delas.
*
Seria pretensão dizer que vai mudar a sua vida também.
Mas certamente vai dar um novo colorido ao seu olhar
sobre o poder de uma palavra...

Words are the true jewels, the words we mouth
and breathe and bequeath to paper. Love
is known only in words and when we touch
in love it is through letters joined
in gentle syllables that we feel what we feel.


...because language knows no impossibilities
and words are the very key to words,
and by words all alchemy is undone.
And I have felt the words in your poems,
those poems which you have so bravely
pushed out into the world after much nurture.

Now these words will live or die
by their inner resources, words which can
no longer devour the flesh that conceived them.


(J.L., june 2002)


Segunda-feira, Novembro 18, 2002

Falando em letra de música que faz chorar...

Resposta ao tempo

Batidas na porta da frente,
É o tempo
Eu bebo um pouquinho pra ter
O argumento
Mas fico sem jeito, calada, e ele ri
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque ele sabe passar e eu não sei

Num dia azul de verão
Sinto o vento
Há folhas no meu coração
É o tempo

Recordo o amor que perdi, ele ri
Diz que somos iguais, se eu notei,
Pois não sabe ficar
E eu também não sei...
E gira em volta de mim,
Sussurra que apaga os caminhos,
Que amores terminam no escuro,
Sozinhos

Respondo que ele aprisiona e eu liberto
Que ele adormece as paixões e eu desperto
E o tempo se rói com inveja de mim,
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Pra tentar reviver

No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso e ele não vai poder
Me esquecer


Voltei de viagem.
Uma viagem de mão dupla:
exteriormente, fui para o interior.
Interiormente, acho que saí da casca.
*
Teve uma festa. Uma festa engraçada.
Nessa festa, a maioria das pessoas era mais velha do que eu.
Tinham entre 40 e 50 anos.
As coisas que eu vi ali me fizeram pensar.
*
As mulheres todas arrumadas... era uma festa à tarde, sob o sol...
mulheres que brilhavam, com pulseiras, brincos, cabelos coloridos.
Vestidos verdes, roxos, vermelhos.
Os homens, de chope na mão, de bermuda e camiseta.
*
Tinha música ao vivo. Muita música, música muito boa. As mulheres,
sentadas batiam os pés no chão, acompanhavam a música com o
tamborilar dos dedos. Ouvi alguns comentários, algumas confissões,
de umas para as outras, do tipo:
"Vou me vestir de diva, vou alugar um lugar, vou cantar a noite inteira."
"Quero sair e dançar, dançar, dançar muito e esquecer da vida."
"Não quero pensar no amanhã; ah, que letra tão linda a desta música"...
*
Para que mundo foram transportadas aquelas mulheres vestidas de cores
gritantes, aquelas mulheres tão quietas?
Que mundo é esse que fica tão longe, que mundo é esse que não se pode
agarrar com a mão?
Por que dizer isso para sua amiga e não para seu marido?
Por que não abrir os braços, respirar bem fundo e puxar esse mundo inteiro
de sonhos para dentro de sua própria alma?
*
A tua alma, mulher, não cabe neste vestido vermelho.
A tua alma te abarca. É teu continente, não teu conteúdo.
Não fales. Sobe no barco. Flutua. Navega.
E segura pela mão aquele que te é mais precioso.
Que te entende. E que queira ir contigo.
E vive.

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Sábado, Novembro 16, 2002

To LOVE and BE LOVED in return...


***
A magia do "saber amar é saber deixar alguém te amar".
Parece tão simples. Mas não é, nunca foi.
*
Até você entender. O cinza existe.
Não só o branco ou o preto.
Não apenas o perfeito ou o desprezível.
*
Quando você entende isso, você se entende imperfeito.
Corruptível, inexato. Você se entende humano.
*
*
Semideuses adoram, deuses sacrificam.
Humanos vivem e amam.
E se deixam amar.
*
*
E basta. E basta.
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Sexta-feira, Novembro 15, 2002


Lichtenstein

Que mão embala estes sonhos de menina?
A tua. Aquela que não recusa permanência.
Aquela que me diz, como teu poeta preferido,
"O que a gente sente, sente, e ainda que não se tente, afetará".

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Adorei isso. Adoro manifestações ideologicamente agressivas
e fisicamente pacíficas.
E além de tudo, concordo com os manifestantes, então adorei
duplamente.
Da Folha Online:
Um desfile em Nova York teve a passarela invadida
ontem por quatro ativistas que defendem a preservação de animais.
A invasão ocorreu quando a modelo brasileira Gisele Bündchen
mostrava uma coleção da grife Victoria Secret.


As manifestantes protestaram contra a modelo,
que assinou contrato recentemente para fazer propaganda
da grife do estilista Blackglama, que usa peles de animais em suas peças.


*
O que definitivamente não suporto no ser humano é a
falta de coerência.
"Eu sou a pessoa que mais gosto de animais no mundo.
Eu estou apenas fazendo meu trabalho. Sou uma modelo.
Eu nem mesmo uso peles. Eles só querem chamar atenção",
disse a modelo no backstage, após o desfile.

*
Acho que cada um tem direito (diria dever, mas já é demais)
de ter uma opinião. Mas coerência não deveria ser um opcional,
mas um original de fábrica, neste caso.

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Paysage aux pappillons, de Salvador Dali

...Com sua alma-morta
Ressuscitada
Em meio a peixes fisgados
Por pedaços de carne-viva...

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Quinta-feira, Novembro 14, 2002


Foto: Galagar

Em pouco mais de 40 horas eu aprendi algumas
coisas que já amalgamaram. Saí de situações
que certamente não sairão de mim. Entendi que às
vezes não importa quanta força a gente faz para ser
continente, a gente vai ser conteúdo.
E, às vezes, desesperadamente querendo ser conteúdo,
vai ter que abarcar coisas e pessoas e sentimentos
e não vai adiantar ser nem a África que ainda vai faltar
espaço.
*
Continente, conteúdo. Não é a gente que decide.
Não neste caso. Não neste jogo.
*
O tom quem escolhe é a gente.
O papel, descobri (tarde demais? diz que não, diz que não)
que não.
*
*

Praia
(Alessandra Siedschlag)


Eu era aquela de olhos fechados
Ali, escondida, na praia rochosa
Com a alma rachada, em meio a assombros
E algas e peixes e sustos e nada.

De dentro do nada saiu não sei quem
Que não sei de onde trouxe não sei o quê
Rasgou minha boca, meus olhos, meus laços
De fora a fora, e eu então fui alguém.

Apagou-me o passado e matou minha fome
No exato instante em que me entrou na vida
O roxo perfume contido em teu nome.

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Evening Star, de Alphonse Mucha

O que passou, passou. Mas o que passou luzindo resplandecerá para sempre.
- Goethe -

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Segunda-feira, Novembro 11, 2002


Flaming June, de Lord Frederic Leighton

La Serenissima
(A. Siedschlag)

A luz amarela, um mar cor de laranja,
tudo em chamas.
Quem diria, dias atrás, que eu estaria assim -
em meio ao fogo do mundo,
serena, em paz. Em mim.

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(post dedicado a Funny Beauty)


Um amigo meu um dia me deu uma fita cassete.
Nesta fita tinha uma música que me fazia chorar.
Era uma música muito muito muito linda. Tão linda
que eu evitava ouvir. Já falei sobre isso.
Sobre as coisas tão intensas que apavoram.
*
Semana passada mandei um email pra ele,
perguntando que música era aquela.
Ele me respondeu dizendo que não sabia.
Típico.
*
Hoje tentei puxar pela memória.
Achei que talvez o nome da música
fosse "I Live to Love You".
Procurei na rede, mas não achei nada.
Então procurei no Grokster. Bingo. É essa música. Sarah Vaughan. Absurda.
Como sempre.


*
*
Não se acha a letra desta música na rede.
(mode very angry on)
Em compensação, tente Kelly Key, Asereje ou
Bonde do Tigrão.
(mode very angry off)
Desculpe o desabafo.
E o pior é que vai chegar gente aqui pelo Google
procurando exatamente estas palavras...
Cada um com seus problemas...
*
*

Se alguém tiver mais informações sobre essa música,
ou alguma correção na letra, por favor, me avise.
*
*
Transcrevo aqui, então, enquanto ouço.
Melem os olhos. É poesia líquida, azul e absolutamente doce.
*
I LIVE TO LOVE YOU
Just like a hawk needs a nest to fly to
Darling, well, I too am in need of the same
Just like your love holds my world together
Like the sky holds the April rain
And like the sun lives to shine above you
I live to love you more with each passing day
I see your face and my heart cries out
Time, oh time, don´t slip away...
Oh, wait asleep
You´re always there
Your love´s my faith
Your name´s my prayer
I touch your hand and oh... that´s day
You opened my eyes the day you chose them
One day you´ll close them when my journey is through
Sometime, somewhere, don´t know how or when.
I´ll find you and I´ll know we´ll love again.
We´ll love again...

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Você conhece esta atriz?

*
O nome dela é Claire Danes.
A melhor atriz da "nova" geração. Disparado.
*
*
Conheço o trabalho dela desde "My So-Called Life".

Era uma série americana que passava aqui no Brasil entre 95 e 96.
Que "Friends", que "Seinfeld" o quê.
Foi o único programa de TV que realmente me "pegou" de jeito - às vezes eu
deixava de sair para assistir ao episódio. E entrava na tela, e chorava junto com ela
(Angela Chase, era este o nome dela na ficção), e ela era desengonçada e alheia
a tudo e inteligente e perdidamente apaixonada pelo Jordan Catalano (lindo, "pop" e
disléxico) e com um menino chamado Brian (feioso, estranho, geniozinho) perdidamente apaixonado por ela.
E eu chorava e eu ria e eu dizia "Deus, como pode alguém ter escrito uma coisa tão perfeita?".
Não parecia coisa americana, era tudo tão poético, tão perfeito, tão idílico. E acabou.

*
*
Depois disso, ela fez vários filmes. Fez "Colcha de Retalhos", fez "Casamento Polonês",
fez "Feriados em Família", "Little Women", "Les Misérables".
E fez algumas porcarias também, mas afinal "that´s Hollywood", não dá pra evitar.
Eu continuo assistindo à maioria das coisas que ela faz e continuo
achando que ela é tudo. Ela não é linda, ela não é "American beauty",
ela não é "Hollywood star". É inteligente, tem uma supercultura e é muito, muito talentosa.
*
*
(Não devia ter nascido nos EUA.)
*
*
Enfim. Isso tudo pra dizer que acabei de comprar a caixa de DVDs de "My So-Called Life", pela Amazon.
Vai ser lançada dia 18 de novembro.


Já estou salivando pra ver tudo, um por um. E viajar de novo,
e ler as poesias nas frases não-ditas empacadas na garganta de Angela, e ver todo seu universo em
seus olhos quando ela olha pro Jordan, e chorar enquanto ela dança alucinadamente em seu quarto,
sozinha, enquanto ninguém a vê (Dancing in the Dark, esse é o nome do episódio). E me entender mais
um pouco através da personagem da minha atriz favorita.

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Domingo, Novembro 10, 2002


Desculpem-me, mas não encontrei uma foto melhor na net
para mostrar o lugar que é mais meu aqui neste País.
Este lugar se chama Poço das Fadas, e fica no Matutu, mais
exatamente em Aiuruoca, em MG.
*
*
Eu e uma de minhas melhores amigas viajamos com sete meninos
para fazer uma passagem de ano-novo com muita caminhada, pouca
comida e situações bem estressantes no nível físico. No primeiro dia (quem
me conhece bem nem precisaria deste adendo) já machuquei feio minha
perna. Ou seja, eu e ela não fizemos a caminhada, que iria de Ibitipoca
até Aiuruoca, mais precisamente o Poço das Fadas. Se não me engano,
foram 4 dias de caminhada (só os meninos, os sete).
*
Quer saber? Foi muito, muito bom não ter ido. Porque a gente conversou muito,
muito, e ficou ainda mais amiga. Sabe quando o silêncio provocado por algum tipo
de distância (não falo só da física, perceba: qualquer distância aqui; emocional,
comunicativa, física) acaba por causar uma rachadura naquela junção das almas?
Então. Aquela viagem remendou. Foi o bandeide.
*
*
Para comemorar a chegada dos meninos no vale do Poço das Fadas, nós nos vestimos
(sim, é verdade) de Branca de Neve e Bruxa Malvada... Compramos sete maçãs, envolvemos
cada uma em um papel de seda azul... E colocamos o nome de cada "anão" em cada maçã.
*
Dunga, Zangado, Dengoso, Feliz, Atchim, Mestre, Soneca.
Quando os meninos chegaram, exaustos, barbudos, e depararam com uma cena daquelas,
a primeira coisa que quiseram fazer foi chiar. Fecharam a cara, o tempo, iam reclamar, mas
quando um olhou pro outro eles começaram a rir muito, muito, e foi uma risada coletiva, uma
catarse, com uma besteira daquelas, bando de marmanjo de 25 a 30 anos, duas loucas fantasiadas
que riam absurdamente, os meninos querendo saber quem era que anão, e a gente mandando que
eles adivinhassem... Foi um momento inesquecível mesmo, que terminou com todo mundo mergulhando
com muito gosto pra dentro do Poço das Fadas, e com a alma e o corpo lavados de tantas risadas
(no começo histéricas) e maçãs vermelhíssimas e abraços de boas-vindas.
*
*
Isso tudo pra ilustrar algumas coisas, que acho que já ficaram claras. Esta história NÃO é uma metáfora.
Mas pode ser lida como uma. Porque a vida é assim. Você entende o que eu quero dizer?
Surpresas, carinhos, um alimento com uma cor vibrante, pequenos detalhes, fantasias. Isso tudo faz
com que qualquer caminho tenha seu fim muito muito muito mais doce. E muito menos "fim", na concepção
primeira da palavra.

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Foto: Elda Harrington


E quando você se debruça sobre si mesmo percebe que essa paixão
encheu seu peito de piscinas, algumas de água escura, outras não,
para as quais estende seu rosto, nas quais se vê e se banha e mergulha,
mergulha na própria imagem, profunda e prasempremente,
de um jeito que assusta, corrói, delicia, machuca, assopra, cura, salva,
e cada coisa de uma vez, e tudo de uma só vez,
e você não consegue ver mais nada a não ser o reflexo da vontade
de permanecer livre, de permanecer gente, de permanecer feliz.
De permanecer.

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Sábado, Novembro 09, 2002

Para minha Silent Sister


Foto: Nic Tucker

Shhhhhhhh...
Não fala mais nada, não fala
Pois que a sua dor já diz
Tudo aquilo que está dentro
Antes mesmo de acordar
Antes de se ver feliz
*
Shhhhhhhh...
Quanto menos se fala, querida,
Tanto mais a dor que arde
Sai da gente e foge e voa
E grita e corre e enlouquece
Escancarando enfim a verdade.
*
Shhhhhhhh...
A dor que não dói arrebenta
E o seu silêncio fundo me cala
Pois então, serenamente,
Ficarei aqui ao seu lado
Ouvindo tudo o que você não fala.

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Foto: Nic Tucker

Serenidade.
Como aprender a palavra
Senão sentindo por dentro?
*
Ser serena. Algo entre tepidez e descanso,
palavra dormente sobre folhas alaranjadas
de cheiro doce e macio.
*
*
Serenos seremos.
Aprendi assim.

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Foto: Nic Tucker

Não sei se você já sentiu isso algum dia. Acho que sim.
Eu sinto quase todo dia.
*
Às vezes eu tenho algum pensamento ou algum sentimento
que é tão forte ou tão convulso que simplesmente me
paralisa.
*
Uma paixão, por exemplo. Quando você sente aquele
bicho te morder a perna e você vê que vai ficar diante
de uma escolha e aquilo te invade e então você vê duas
opções: "flight" ou "fight"... e fica nesta briga interna até
perceber que ali vence quem é vencido, e nunca o contrário.
*
*
A inspiração. De vez em quando a inspiração é tão imensa
e vem em golfadas cada vez mais fortes e o medo que você
tem é que não consiga traduzir de maneira fiel o que sente
e o que pensa e então a única maneira é fugir da escrita. Mas
aqui também, como no caso anterior, não cabe fugir. A escrita
fica ali, presa em algum lugar entre o seu coração e o seu punho,
e a única maneira de se livrar disso é fazendo uma sangria, com
a ponta da caneta jorrando verborragicamente tudo o que está dentro
de você para dentro do papel.
*
*
E tem ainda a admiração. Aquela admiração que você sente e é tão
profunda e é tão completa que desumaniza você e o objeto admirado.
Você não respira; tem medo de que qualquer movimento de ar
estrague tudo - e o culpado vai ser você. Eu sofro deste mal.
Enfim, estou tentando passar por cima disso. Para você vai parecer besteira -
creia-me, é mais forte do que eu. Tenho pavor de profanar ou empregar mal
as palavras de quem admiro tanto, quebrar a epifania, destruir.
Desde ontem, porém, a vontade de falar sobre isso me persegue.
E vou enfrentá-la.
Por isso transcrevo aqui um dos poemas que mais amo, escrito pela
deusa-mulher-mãe-criadora-da-palavra Cecilia Meireles.

Cantata Vesperal
C. Meireles

Cerrai-vos, olhos, que é tarde, e longe,
e acabou-se a festa do mundo:
começam as saudades hoje.

Longos adeuses pelas varandas
perdem-se; e vão fugindo em mármore
cascatas céleres de escadas.

Pelos portões não passam mais sombras,
nem há mais vozes que se entendam
nas distâncias que o céu desdobra.

As ruas levam a mares densos.
E pelos mares fogem barcas
sem esperanças de endereços.


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Sexta-feira, Novembro 08, 2002


Foto: Tadeu Bianconi

E lhe soltaram as mãos, e tiraram as correntes de seus pés,
e uh! queda livre, agora, e apagaram aquela lâmpada que a
incomodava tanto e lhe fazia arderem os olhos, aquela
maldita lâmpada azul que a transformava em mariposa, se
debatendo contra o vidro que quanto mais a atraía mais a
queimava, isca-viva, alma-morta, e agora lhe deram uma
alma nova, novinha em folha, lavada e passada, e ela está
usando um girassol (gira-gira-gira...) nos cabelos e suas cicatrizes estão
sendo cauterizadas pelo sol e ela uh! não consegue ainda
andar completamente em linha reta, ora, andou em círculos
a vida toda, e agora, sozinha, engatinhar não pode, mas era
isso que queria fazer neste momento, que feio, moça feita, já
de pé, o que é isso, e caminhe, e olhe pra frente, peito estufado,
coluna reta, sorriso no rosto e ahhh, alguém pára o mundo então,
parece que bebi dois copos de cachaça, como andar pra frente
se não sei nem se meus músculos são feitos pra isso?
, como não
sentar, como não ter medo, como não parar com tudo agora???
*
*
Já sei como. Dá-me tua mão. Diz que me ama. Diz que és meu.
E me basta. E me basta. E me basta.

*
*
*
Veja! Aquela lá na frente, com uma flor já despetalada nos cabelos... não é ela?

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Você conhece a Olga Savary?
Não? Então conheça.
Conheça, agora.
Procure no Google, na Fnac,
no Submarino, wherever.
Correndo. Porque uma vida é pouco tempo
para amar esta mulher.
*
*
*
NOME III
(O. Savary)

Pelos braços da manhã é que escorro
tendo no corpo o cantar do dia.
De branco chegas como um noivo, estou
também de branco ritualizando a espera.
O que de mim fica é o procurar-me
e o me encontrar debaixo dos teus flancos.
Paixão é o nome deste pasto e desta fome
que nos consome e nos labora, amor
o nome onde deságuo e de onde escorres

Esta a nossa liberdade:
só tu és tudo e tudo eu sou.


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Ontem à noite eu entrei no site da Marina
e vi uma pergunta
"Qual a cena de filme de que você mais gosta?"
Na hora, digo, na HORA mesmo me veio esta cena
na cabeça:





*
*
Assistiu a esse filme?
Engraçado. Eu adoro fazer listas. Faço listas de filmes, de poetas, de poemas, de músicas,
de épocas, classifico, rotulo. E logicamente sempre mudo de opinião (tempo máximo = 3 dias).
Mas este filme está sempre na minha lista de "Melhores".
Não significa grande coisa para o filme, afinal quem sou eu?, mas para mim isso significa
que o filme realmente me tocou e incrustou e encravou e criou raiz dentro.
E me conheço. Nunca mais vai sair.
*
*
Isso aconteceu algumas vezes comigo.
Exatamente com dois poetas, duas pessoas, uma cantora, três perfumes.
E este filme.
*
*
*
Esta cena é um caso à parte.
Vamos lá.



Esta é a imagem promocional do filme.
Este desenho foi feito pela própria Juliette Binoche e - perceba - é aquela cena mágica.
La Binoche é uma moça condenada a ficar cega, que sai de casa e vai morar sob uma ponte
(a Pont-Neuf), em Paris. Lá ela conhece e se apaixona por um engolidor de fogo, o Denis Lavant.
Essa cena a que eu me refiro se passa na comemoração do bicentenário da Revolução Francesa.
Os dois, caindo de bêbados, de loucos, de tristes, de apaixonados, saem correndo,
gritando pelas ruas, e aquela loucura acaba se transformando em um balé demente,
uma dança sem nexo mas absolutamente perfeita, eles se abraçam, rodam, se distanciam,
se abraçam, se beijam, e rodam, e rodam, e os fogos de artifício que espocam no fundo da tela,
e a Binoche que sobe no muro que beira o Sena, e o Lavant, manco,
que tenta segui-la e dá cambalhotas pela rua, e é uma coisa sem fim, cíclica, passional.
O fogo atrás, o fogo aqui, o fogo neles, ele engolidor de fogo, ela cujos olhos queimam,
e Deus, quanta poesia para uma só tela de cinema.
*
*
Esse é o filme da minha vida. Podem vir outros, mas virão e irão, como sempre. Este ficou.

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Quinta-feira, Novembro 07, 2002


Foto: Vavra, R. (Sua Majestade do Reino de Alessandra)

Ele acordou. Ele acordou antes que eu acordasse.
Ele me acordou. Está aqui, olha,
trotando por dentro.
E vocalizando, feroz.
Você está viva, ele diz.
Eu estou viva, eu sinto.
Felizes as pessoas que têm um cavalo morando na alma.

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Meu carinho inteiro para Silêncio-irmã,
Amore (ele), Amore (ela)
e Funny beauty.
Cara, como vocês foram importantes hoje. Sério. Vocês sabiam da força que têm?
Fiquem sabendo, pois.
E nunca nunca nunca duvidem dela.

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Foto: João Lobo

Essa imagem me traduz hoje.
Este não é um olho que dorme.
(Não pelo que eu vejo.)
Este é um olho cansado.
Que está cansado de filtrar, filtrar, filtrar
e refletir e refletir e refletir ad infinitum
como o espelho no espelho no espelho no espelho
ohlepse on ohlepse on ohlepse on ohlepse on.
*
*
A retina que não reflete outra retina
Pode ser menos colorida, ou mais vazia,
Mas não menos retina.
*
*
"Eu sou aquela de olhos fechados."

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Quarta-feira, Novembro 06, 2002

Tenho um livro de fotografias que se chama "Il Bacio",
comprado em Verona, em 1993.
Minha irmã morre por ele.
Era uma edição limitada, e não se encontra mais à venda. É maravilhoso.
Não é um livro "sentimental" em sua iniciativa, mas "documentário",
imagens que retratam períodos diversos, sempre expressas por um beijo.
*
Através deste livro, entre os instantâneos de vários fotógrafos, descobri a arte de um
fotógrafo-gênio. O nome dele é Vincenzo Balocchi
(fiorentino, ele também, mas será isso uma conspiração, Deus?).


Foto: "Apassionatamente", Balocchi V., 1947

Olha o título da foto. Olha a foto. Olha a expressão do homem na foto.
Deus. Imagens são palavras, e vice-versa.
*
Uma boa foto, segundo os meus padrões, me faz querer estar dentro dela.
E eu queria ser esta mulher. Sendo apaixonadamente conduzida.
Pra onde quer que fosse.

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Ainda não tenho uma semana de blogue e já
colhi doçura de tanta parte...
Olha que coisa mais linda eu recebi do Kali...
em resposta a um trecho de um texto meu
("Me enxerga. Estou toda aqui, brilhando pra você.
E o que brilha é verdadeiro, e gruda na carne.
Me enxerga.")

Não, não te enxergo.
Antes volto os olhos para um canto.
Se queres que te enxergo,
Por que então brilhas tanto?


Kali, docinho. Amei.
Carinhos.

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Não é meu poeta favorito.
Quem me conhece sabe que sou
Cecilia Meireles desde criancinha.
E doente por Ted Hughes e Olga Savary.
*
*
Mas este poema, quando ouço (tenho a versão
declamada pelo próprio poeta), choro. Literalmente.
E sempre.
*

Foto: A. Carvalhal
*
Conjugação da Ausente
(Vinicius de Moraes)

Tua graça caminha pela casa.
Moves-te, blindada em abstrações, como um T.
Trazes a cabeça enterrada nos ombros,
Qual escura rosa sem haste.
És tão profundamente
Que irrelevas as coisas, mesmo do pensamento.
A cadeira é cadeira e o quadro é quadro
Porque te participam.
Fora o jardim modesto como tu
Murcha em antúrios a tua ausência.
As folhas te outonam, a grama te quer.
És vegetal, amiga...
Amiga.
Direi baixo o teu nome
Não ao rádio ou ao espelho, mas à porta
Que te emoldura fatigada
E ao Corredor que pára
Para te andar adunca,
Inutilmente rápida.
Vazia a casa.
Raios, no entanto, desse olhar sobejo
Oblíquos cristalizam a tua ausência.
Vejo-te em cada prisma, refletindo
Diagonalmente a múltipla esperança.
E te amo, te venero, te idolatro
Numa perplexidade de criança.


* * *******************************************************************************************************************************************************




Tá. Então eu tinha tirado o dia para ir assistir ao meu Almodóvar.
Mas daí eu fiquei enredada em outro filme.
Um filme sobre o qual nunca tinha ouvido falar,
mas cuja propaganda no começo de outro filme me pegou de jeito.
E aí aluguei este filme, e estou presa a ele como uma ostra em uma rede cheia de alga,
e de vez em quando preciso apertar o "stop" lá no videocassete porque preciso respirar.
É um filme denso. Na verdade, não é um filme. É uma poesia de água salgada.
Uma água de mar tão salgada que te faz boiar e te deixa nauseado
mas te leva para lugares onde a paisagem é uma poesia.
O filme se chama "Coração Iluminado", ou "Foolish Heart", ou "Corazón Iluminado".
(Eu sempre digo "Coração Despedaçado", mas enfim, isso meu terapeuta me
explica depois.)
O filme é do Hector Babenco.
Em um dos diálogos, esta frase:
Men fall in love with women who are crazy, but then they end up getting married to the same ones.
Quando eu emergir do filme, digo o que achei. Até agora, estou inebriada e mareada e não dá pra falar.
Com licença.

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foto: António Carvalhal


Minha proposta é essa.
Deixamos tudo pra trás. Tudo.
Vamos viver a partir de hoje em quartos de hotel.
Porque quartos de hotel não são de ninguém.
E todo mundo é ninguém dentro deles.
*
Quartos de hotel, por si só,
já são preparados para o espetáculo.
Não importa se o hotel é luxuoso ou de beira de estrada.
O que importa é que seus quartos são um palco.
*
Vamos passar no máximo uma semana em cada hotel.
Mais do que isso, ficaríamos íntimos do lugar, o que seria infrutífero,
pois que isso nos castraria e faria com que nos esquecêssemos de quem somos.
*
*
Só podemos ser alguém em algum lugar que seja um nada.

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Recebi um texto lindo, lindo do André
O texto é poesia, é silêncio, é música e é pulso. Transcrevo abaixo.

A música de Almodóvar
(Sérgio A. de Andrade)
*
*
Embora eu adore touradas e não seja dos maiores fãs da idéia assombrosamente
tolerante que pode levar alguém a admitir uma mulher numa arena de touros,
mesmo assim sou obrigado a reconhecer que tudo em Fale com Ela é tão
fascinante e delicado que até a toureira que faz parte de sua trama é
absolutamente perfeita. Eu não sabia que Pedro Almodóvar entendia tanto de
touros.


Tem sido muito estimulante, aliás, acompanhar a forma pela qual as maiores
qualidades de Pedro Almodóvar vêm se modificando com o tempo sem perderem
nunca nenhum de seus charmes: Pedro Almodóvar anda tão cansado de ver tantas
versões de si mesmo proliferando pelo mundo que talvez tenha acabado
decidindo, afinal, mudar um pouco seus hábitos como diretor. Para a platéia
que segue seu desenvolvimento com o tipo de fidelidade apaixonada que só os
prazeres excessivos podem inspirar, essa mudança foi uma sorte ainda maior:
seus últimos filmes, discretissimamente redirecionados, tornam Pedro
Almodóvar mais Pedro Almodóvar que nunca.

Algumas evidências desse redirecionamento são óbvias: a crescente autonomia
formal em relação a seus modelos originais, como Douglas Sirk e Vincent
Minelli; a deliciosa conquista da confiante serenidade de seu estilo; a
magistral modulação dos ritmos de sua narrativa num movimento que equilibra
perfeitamente a poesia ao sarcasmo e a evolução do ansioso frenesi camp de
sua primeira fase numa perspectiva que transforma o caráter ibérico de sua
subversão por vezes numa parábola, por vezes numa sinfonia.

Fale com Ela é uma comédia negra romântica, um musical e um conto filosófico
sobre o primeiro amor: o maior triunfo de Pedro Almodóvar foi justamente ter
conseguido transformar uma grande fantasia sobre a linguagem, o sexo, a
criação e a morte num divertissement irresistível que se estrutura, passo a
passo, com a impecável densidade de uma fábula moral.

Por isso, por mais que o admirasse, eu devo confessar que nunca imaginei que
Pedro Almodóvar pudesse encenar com tanta inteligência as implicações
delicadas, no âmbito da moralidade, de um dilema provavelmente insolúvel;
com Fale com Ela, no entanto, Pedro Almodóvar se revelou o que eu jamais o
supus capaz de se tornar: um consumado mestre da discussão ética.

Todo mundo já deve conhecer, a essa altura, a história do filme - é provável
que seja bem mais que suficiente adiantar que sua trama concentra-se sobre
dois homens que passam o tempo todo dedicados a cuidar de uma toureira e uma
bailarina em coma.

Por outro lado, apesar de que algumas pessoas venham repetindo, com
entusiasmada singeleza, que Fale com Ela representa o primeiro filme em que
homens assumem um papel de destaque na obra de Pedro Almodóvar, essa não me
parece ser, em absoluto, sua intenção original: em seu filme, Pedro
Almodóvar deixa razoavelmente claro que o silêncio das duas mulheres em coma
é muito mais pródigo de sentido que a tagarelice, o estupor ou mesmo a
paixão de seus companheiros no hospital. Os homens só podem se limitar a
falar. Misteriosas e superiores, as mulheres não precisam de nenhuma
palavra.

Provavelmente por isso Fale com Ela, como seu título já indica, representa
uma magnífica reflexão, organizada como uma fábula, sobre os esplendores e
os limites da linguagem. É uma fábula que celebra a música como a única
forma capaz de significar tanto quanto a carne - nesse sentido, é mais que
sintomático que o filme comece e termine com duas coreografias de Pina
Bausch, que uma tourada surja ao som de Elis Regina cantando Por Toda a
Minha Vida e que a participação de Caetano Veloso cantando Cucurrucucu
Paloma soe tão essencial: a música é a voz mais funda de Fale com Ela
(talvez naturalmente, talvez graças à elegância sempre infalível de sua
intuição, Caetano Veloso canta com a voz de Dona Canô: é uma impostação
absolutamente coerente para ilustrar um filme tão obcecado por mães, fendas,
genitais, sangue e a procriação).

Como sempre costuma acontecer em suas seqüências mais estratégicas, é ao
contar um filme que uma de suas personagens descobre o que deve - e, o que é
mais importante -, o que pode fazer. O caráter de sua ação provavelmente
pareça escandaloso, arrebatado ou imoral - Fale com Ela é de uma gloriosa
indiferença a quase todo tipo de facilidade. Mas é evidente que um dos
maiores encantos do cinema, para Pedro Almodóvar, é poder funcionar como um
esplêndido afrodisíaco: depois de Fale com Ela, ninguém mais vai conseguir
pensar em Bela Adormecida com a mesma inocência.

Assistir a Fale com Ela é como ouvir uma canção de ninar repleta de
arquétipos, sussurrada no escuro, na qual toureiras tem fobias de serpentes,
bailarinas em coma parecem mergulhadas num estado de suspensão encantada e
mesmo o mais supostamente abjeto dos estupros pode funcionar à perfeição
como o beijo mágico de um príncipe. Fale com Ela é um filme sem medo de
experimentar até onde a moral pode ser posta à prova.

Fotografado pelo grande Javier Aguirresarobe, que fez de cada quarto de
hospital uma cálida redoma ocre, Fale com Ela ainda conta com Geraldine
Chaplin como uma professora de balé que talvez acredite mais do que deveria
em símbolos e a inacreditável Paz Vega, uma atriz espanhola capaz de
transformar rigorosamente qualquer cena num exuberante show erótico.

Um dos mais famosos caprichos desenhados por Goya é definido por uma legenda
que afirma que "o sono da razão produz monstros".

O sono das duas personagens principais de Fale com Ela produz homens. Mas
são homens que se debruçam sobre o sono profundo de suas musas com a
perplexidade de duas crianças perdidas que hesitam para penetrar o interior
de um palácio secreto. As duas mulheres em coma parecem entoar o tempo todo
uma canção muda como duas sereias terríveis que não precisam nem da melodia
para fazerem com que o silêncio brilhe.

Não há nada mais difícil que falar com elas.

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Terça-feira, Novembro 05, 2002


foto: Lucien Clergue

Esse sol convulso, essa luz que cega,
meu sexo pulsando dentro da noite
- ela, não cabendo em si mesma.

E são tão imensas as coisas sonhadas
e tão queridas e tão desejadas que já
quase inexistem, antes mesmo de existirem.

Houvesse um sim.
E seria janeiro, e seria o azul e o laranja e os olhos
fechados, e seria já o sol sincero, e a luz que desbrava,
e teu sexo pulsando dentro de mim
- nós, cabendo um no outro.

Um leão de âmbar, um fio de pipa, lembranças de troncos imensos, sem nome,
sem data, sem tempo ou espaço, tudo isso na ponta dos teus dedos, da tua
língua, na primeira letra do teu nome.
E a imensidão vira essência; é conteúdo, não mais continente.

E não se vê mais nada. Porque agora tudo pulsa.
Tudo cabe. Tudo junto. Tudo dentro.
Tudo um.

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(foto: Castello di San Leo. San Leo, Italia)

...Ma tutto in te è magnifica Grecia,
non hai la perspicacia di Ulisse
non hai la malizia degli uomini,
ma sei silenzioso e caldo
come la matrice di un giunco.


-Merini, Alda -

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foto: Kirkland, Douglas

Mood. In the mood.
É quando a onda se alça e te alcança
e quase te afoga e te vira de ponta-cabeça e quando vês já estás tão tonto de maresia
e a boca tão salgada e o corpo todo torpe e os pulsos enredados por algas
e os olhos ardentes e os peixes te olhando e uma mordida de tubarão no ventre.
Isso se chama Vontade.
*
Com V maiúsculo, por favor. Essa dama merece respeito.
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Segunda-feira, Novembro 04, 2002

Pra quebrar a maldição da oficialmente declarada "temporada de filmes ruins",
cuja semana teve o prazer de exibir para a tonta aqui, além de "Dragão Vermelho" no cinema, o
imbecil "From Hell" (Pai, perdoai Johnny Depp pois que ele não sabe o que faz) e também
o estúpido "In Dreams" (alguém tem uma explicação para o Stephen Rea e o Downey, Jr.
fazerem isso com suas carreiras?), amanhã eu VOU assistir ao meu Almodóvar querido,
protetor de toda a carência que assola qualquer ser humano (vivo) de vez em quando.



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Essa foto aí embaixo é da praça de uma cidade que se chama Impruneta.
Minha Impruneta, porque me deram, então não me interessa se disserem que não é
porque eu sei que é.
E lá tem o melhor sanduíche do mundo. Ele é feito com espinafre e muito azeite.
E tem um cappuccino cremoso de dar até dó de tomar.
E sob as pedras irregulares daquele chão cinzento estão escondidas
algumas das melhores lembranças da minha vida.

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E de repente a gente fecha os olhos e é como
se se abrissem mil outros sentidos, mesmo alguns que
você não conhecia. Este é o momento em que você
sente as asas da sua alma desabrochando, imensas.
Faça esse exercício todo dia.
Exercite suas lembranças e tonifique sua alma.

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Ah, meu olfato realmente não me engana. Nunca.
Achei a composição da tal
"pirâmide misteriosa". Lá vai:




Manteiga de Cacau,
Partículas de brilho douradas,
Óleo de Amêndoas, Patchuli Oil,
Óleo de Laranja, Óleo de Alfazema, Óleo de Pinho,
Óleo de campim-limão, Óleo de Elemi e
Extrato de Gardênia.
*
*
Ter olfato e tato desenvolvidos é um dom divino.
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Se alguma alma gentil quiser me ensinar como se faz para colocar imagens
no meio dos textos que escrevo aqui nos posts, terá como prêmio
a minha eterna gratidão ou um cappuccino bem encorpado.
O que vier primeiro.
Obrigada.
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Ainda bem que eu moro bem longe da Lush,
aquela loja que se não for igual deve ser muito muito parecida
com o que se chama de paraíso na Terra.
*
*
Não sou consumista, graças a Deus
(a não ser quando se trata de filmes e livros, aí eu viro bicho),
mas aquela loja é um atentado a qualquer pessoa civilizada.
O que é aquilo, meu Deus?
*
Uma loja que vende uma piramidezinha de creme hidratante com purpurina
dourada (dou-ra-da, percebe?) e cheiro de incenso (um cheiro meio
laranja meio patchouly) não merece mesmo meu respeito.
*
Trouxe também, além desta perdição supra-relatada e da henna abaixo descrita,
uma barra de sabonete absolutamente cremoso e hidratante com cheiro de baunilha (lógico)
e jasmim. Jasmim, compreende?
Aquele que fica espalhado pelas calçadas nesta época do ano.
Aquele que eu sempre colho do chão e com o qual forro o
banco detrás do meu carro pra ir dirigindo envolta em uma nuvem
de fantasia cheirosa.
Pois é. Comprei um sabonete de baunilha com jasmim.
E com um fixador para dar inveja a qualquer perfume do Boticário.
*
Ah. E dizem ainda que essa purpurina e esse anticristo desse sabonete são afrodisíacos.
Mas como realmente não acredito na perfeição, não vou nem aventar a hipótese.
Senão realmente ensandecerei. Grata.
*
Deus me ouça.
Que não se abra nenhuma loja dessa perto da minha casa ou do meu trabalho.
Amém.

Domingo, Novembro 03, 2002

Receita para reencontro de si mesma



Pegue um bloco de henna (de qualquer cor. Mas em bloco - não vale pó ou creme).
Um tijolo de uns 50 gramas. Sinta-o na palma da sua mão.
Envolva-o com as mãos. Sinta sua aspereza ao toque.
*
*
*
Fique nua. Entre na banheira ou no box do chuveiro.
Coloque o tijolo dentro de um pote com água bem quente.
Sinta o cheiro que sai dali. A terra que ao mesmo tempo entra no seu corpo pelo nariz
e impregna-se na sua pele. Veja o tijolo virando pedaços cada vez menores,
observe esses pedaços cada vez menores virando barro. Lama. Argila.
Agora coloque suas mãos na lama. Com vontade.
Lembre-se de quando você era criança e pintava o rosto com barro colorido.
Lembre-se do último doce que você fez, sovando a massa com carinho.
Carinho mas firmeza. Sinta o "squish, squish" nas palmas e dorso, veja o barro subir entre os dedos.
Perceba que a vontade cresce. Agora você não tem mais nojo ou receio ou vergonha.
Não se lave.
*
*
*
Com os cabelos um pouco umedecidos, vá colocando essa massa sobre os fios.
Massageie. Feche os olhos. Sinta o cheiro de terra. Seus cabelos de terra.
Regrida, viaje, saia da cidade, vá até o Egito, ou a Índia.
Perceba a íntima ligação entre você mulher e você terra. Mulher terra.
Cheire. Massageie. Acaricie-se.
Qual a sua forma? Tijolo? Barro?
Molde-se. Reencontre-se sob a terra úmida.
Sinta seu cheiro, seu toque, até seu gosto pelas gotas que eventualmente caírem em sua boca.
É amargo. Mas é assim que tem de ser.
*
*
*
Uma hora depois, lave os cabelos com água bem quente.
Não se reconhece ao se olhar no espelho? Então deu certo.
E, creia-me. A nova cor do cabelo é a menos responsável por isso.

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Acabo de voltar do cinema.
Assisti a "Dragão Vermelho".
Poderia se chamar "Hannibal 3".
*
*
*
Agora, Alessandra, repita comigo
Eu nunca mais vejo continuação de filme, eu nunca mais
vejo continuação de filme, eu nunca mais vejo continuação
de filme, eu nunca mais vejo continuação de filme,
eu nunca mais vejo continuação de filme, eu
nunca mais vejo continuação de filme.
Mesmo com 5 Anthony Hopkins, 6 Ralph Fiennes
e 3 Emily Watson.
Tá. 6 Ralph Fiennes me fariam pensar.
...
Mas não. Eu nunca mais vejo continuação de filme.
Decidido.

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Sábado, Novembro 02, 2002

Depois de denúncias (não tão) anônimas de uma doença que eu teria contraído quando criança,
chamada "Vejoqueuquerover", ou "IseewhatIwannasee",resolvi checar os fatos.
Não encontrei nada de grave (lógico... este é um dos sintomas). Enfim.
Só que quando a filha da mãe da doença resolve se mostrar pra você, não adianta
olhar pro lado. Ela se arreganha, se esfrega na tua cara e quando você vê ela já explodiu
e deixou uma gosma verde escorrendo nos teus lábios, com um gosto bem amargo.
Pronto. Senti na pele.Eu só via o que queria ver.
Com o sintoma colateral de que eu só acreditava naquilo que inventava.
Muito bem. Já vi, ô gosma. Mas agora também te provei e já te cuspi - ah, se já...
Com licença, vou colocar os óculos escuros. Esta realidade realmente me dói na vista.
Obrigada.
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Sexta-feira, Novembro 01, 2002

Estas são minhas opções.
Posso cavar cada vez mais fundo para dentro
de um lugar que não é meu, remodelando
entranhas, dinamitando ossos, usando da argila
(não)divina para criar uma (pseudo)alma.
*
Mas também posso subir no cavalo chucro que
se chama Instinto, sem esperança ou desejo
de amansá-lo.
Soltando suas rédeas, para que ele me leve aonde
quiser, e ficando em pé na sela com um pé só,
vestida de violeta e purpurinas, tal qual
circense desesperada para que
todos a vejam.
*
*
Olha, lá vou eu. Sobre aquele bicho negro,
que brada seus anseios em vocalises
furiosos. Suas patas são imensas e duras, mas
sabem deixar marcas de ternura sobre o pasto
com o qual ele se alimenta.
*
*
*
Me enxerga. Estou toda aqui, brilhando pra você.
E o que brilha é verdadeiro, e gruda na carne.
Me enxerga.

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Meu peso não vem da quantidade das coisas
que eu sinto. Ele vem da intensidade, da força
que jorra a cada pensamento, do fogo que
se acende em todos os piscares de olhos seguidos de uma
boa lembrança, da saudade que arde tanto que sufoca.
Acho que matar sentimentos é fácil. Conhecimento
de causa. Matar sentimentos é a coisa mais fácil do mundo.
Mas considero covarde.
Difícil é transmutá-los.Contorná-los. Domá-los.
Deus. Como reter estas mancheias de sentimentos e vontades
e febres e sonhos e ao mesmo tempo temperá-los?
Domar os instintos, cavalgá-los?
(Risadas sonoras. Fecha o pano do sarcasmo)
Quanto a isso, creia-me. Sou piamente incrédula.


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Menos mal. Outubro já era. Novembro, eis-me aqui.
Peito aberto, escancarado. Boca seca, coração tum-tum.
Botas pretas para algum imprevisto, embora quase verão.
Cabelos em cachos, cor de outono, apesar da primavera que teima em desabar sobre mim
tal tempestade de flores no rosto de uma pequena camponesa órfã.
Ah, faça-me o favor. De homem pra homem, agora.
Vem, novembro. Me golpeia bem aqui.
Pra ver se eu acordo e olho o mundo de novo com aqueles olhos amarelos
que ainda são meus mas deixei em algum lugar.
Talvez junto com as canetas baratas que cismo em perder,
os isqueiros que desaparecem depois do fogo
ou os guarda-chuvas que sempre me fogem em dias de chuva.


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